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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Repetição

Shunryu Susuki
O Buda (...) estava interessado em saber como ele próprio existia naquele exato momento. Essa era a questão. (...) Seu maior interesse era saber como podemos nos tornar iluminados. (...) Para descobrir como a massa se transforma em pão perfeito, ele fez o pão perfeito, ele fez o pão repetidas vezes até que obteve êxito. Talvez se possa achar pouco interessante cozinhar repetidas vezes a mesma coisa, dia após dia. Pode parecer tedioso. De fato, se você perde o espírito de repetição, sua prática se torna bastante difícil, mas não será difícil se você estiver cheio de força e vitalidade. De qualquer modo, não há como ficar inativo; é necessário fazer alguma coisa. Portanto, quando fizer alguma coisa, seja atento, cuidadoso e alerta. Nosso caminho é colocar a massa no forno e observá-la com cuidado. Uma vez que você souber como a massa se transforma em pão, você entenderá a iluminação. Nosso maior interesse, portanto, é saber como  este corpo físico se transforma num sábio. Um sábio é um sábio. Explicações metafísicas sobre a natureza humana não são a questão. Assim, o tipo de prática pode se tornar demasiado idealista. Se um artista se torna muito idealista, acaba se suicidando, porque há um imenso vão entre seu ideal e sua real habilidade. E ele entra em desespero porque não existe ponte suficientemente extensa para cobrir esse vão. Esse é o caminho espiritual comum. O nosso caminho espiritual não é tão idealista. Todavia, em certo sentido, devemos ser idealistas - devemos pelo menos estar interessados em fazer pães bonitos e saborosos. A verdadeira prática consiste em repetir sem cessar até descobrir como se tornar pão. Não há segredo em nosso caminho. Apenas praticar zazen e colocar-nos no forno é nosso caminho."

do livro "Mente Zen, Mente de Principiante" de Shunryu Suzuki

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O cão e o budismo

"DISCÍPULO: - Como posso encontrar a minha natureza de Buda?
MESTRE: - Tu não tens natureza de Buda.
DISCÍPULO: - E os cães?
MESTRE: - Eles, sim, eles têm natureza de Buda.
DISCÍPULO: - Então, por que não tenho natureza de Buda?
MESTRE: - Porque precisas perguntar.
Os cães não têm simplesmente a natureza de Buda: a sua própria natureza canina é a natureza de Buda. E o que os torna pequenos Mestres Zen peludos, salivantes, latidores, pedintes, brincalhões? Bem, há um koan, ou ditado budista, do mestre Zen Shunryu Suzuki, do século 20, que o resume sabiamente:
“Há algo de blasfêmia em dizer-se como o Budismo é perfeito como filosofia ou ensinamento se não se sabe o que realmente é.”
A nosso ver, Suzuki não poderia ter dito melhor. Nunca deveríamos presumir que presumimos saber. E menos ainda um cachorro. E é exatamente esta a pista do Cão Zen. Mesmo nos piores dias de cão, os cães sentam-se, param e abanam o rabo para expressar devoção, honestidade, lealdade, amor, compaixão e alegria – as mais puras qualidades Zen. Isso é tão visível quanto o focinho frio e úmido nas suas caras. Os cães vivem o momento presente. A cada minuto que começa ou acaba com o próximo osso, bola, migalha de pão ou até com o cheiro realmente desagradável que venham a farejar, os cães vivem a verdadeira alegria da vida. Certamente não foi obra do acaso terem sido os cães os primeiros animais a serem domesticados pelo ser humano e terem-lhes permanecido fiéis desde então. Talvez seja por isso que não duvidam que têm um espaço garantido na cama – milhares de anos de serviço os tornam merecedores de pelo menos uma boa noite de sono. E, depois de um cansativo dia de trabalho, aqueles olhos puros, meigos, de cachorrinho olhando para você com devoção canina, atiram longe o stress mais tenaz e o ânimo mais deprimido. E, quando o humor já está recobrado, fazem todo o possível para partilhar dessa felicidade – sobretudo se for a sua felicidade – com demonstrações de energia positiva, balançando o corpo e saltando de pura alegria. Talvez um único ano de vida de um cão valha por sete anos humanos porque eles não têm coisas inúteis a fervilhar nas suas mentes, assim como podem armazenar sete vezes mais amor num ano do que qualquer um de nós. Na categoria gosto-não-se-discute os cães ganham de longe. Quantas vezes já viu cães amando incondicionalmente os seus donos – mesmo quando são pessoas muito difíceis – de um modo que talvez o próprio Buda visse como um desafio a ser vencido? Talvez eles amem essas pessoas simplesmente porque são capazes disso e aceitem voluntariamente o dever do combate emocional, uma vez que sabem, assim como Buda sabia, que o ódio não se vence com o ódio, o ódio é conquistado pelo amor. Os cães fiéis ensinam os seus donos, mesmo aqueles que não são dignos de ser chamados de pessoas, a amar de novas e diferentes maneiras.Outro presente que trazem para nossas vidas é uma lição da arte de identificar o que é verdadeiramente importante – uma cesta à tarde num lugarzinho cheio de sol, uma relva num cálido dia de primavera ou um belo e longo passeio sem destino certo. Aprendemos a ter paciência quando tentamos ensiná-los a dominar a arte de sentar-se, ficar de pé ou ir buscar algo. Qualquer pessoa que tenha sido acordada ao amanhecer, com latidos pedindo um passeio, recebeu uma lição de dedicação altruísta, do tipo da que faz a si perguntar-se já tinha mesmo noção de quem é o Mestre nas relações homem-cão, invertida o tempo todo. Como bem disse Buda, de forma muito simples e profunda:
Controle seus sentidos,
O que você prova e cheira,
O que vê, o que ouve.
Em tudo, seja o Mestre do que faz, diz e pensa.
Seja livre.
Os cães não sabem falar e, convenhamos, certamente não têm as papilas gustativas mais refinadas do reino animal (eles deixam isto para a dengosa turma felina), mas estão sempre demonstrando um domínio dos próprios sentidos. Certamente seus aguçados focinhos conseguem não só desenterrar o osso velho, ora pronto para uso, que haviam enterrado sob a sua roseira predileta um ano e meio atrás, como também conseguem farejar a sinceridade e a ternura nos seres humanos. E, a partir do momento em que conseguimos ver claramente por onde seus focinhos passaram, os cães mostram-nos como descobrir o melhor de nós mesmos. Usam seu refinadíssimo olfato de forma miraculosa, seja para avisar famílias sobre incêndios no meio da noite, seja para localizar nódulos cancerosos nas pessoas, utilizando seus focinhos extraordinariamente apurados para prevenir tragédias que os alarmes contra fogo e médicos experientes não conseguiram detectar. E é essa mesma sensibilidade que fareja carências numa pessoa quando uma gentil esfregadela do focinho ou uma lambidela tola no rosto oferece um bem-vindo e carinhoso toque de cómico alívio. Mesmo que as papilas do seu paladar possam não parecer refinadas, eles certamente têm seus petiscos favoritos – um biscoito crocante, deliciosos sapatos novos italianos ou, melhor ainda, a gostosa maciez de sua bola de tênis favorita. Quanto a gostar de pessoas, têm suas predileções, lembrando-se de algumas delas depois de anos sem vê-las ou mesmo viajando centenas de quilômetros para reunir-se aos seus amados humanos. Os cães vêem-nos como somos ou até mais profundamente; vêem-nos como podemos ser. A fidelidade de um cão ajuda-o a fechar os olhos para a fealdade das pessoas que o maltratam, vendo nelas apenas a beleza enquanto espera pacientemente que o seu lado melhor venha à tona. Se fôssemos suficientemente sábios para dar uma olhada nos espelhos da alma de um cão, veríamos que o amor ali reflectido está directamente voltado para nós. Todos já ouvimos falar da aguçada audição canina, já vimos suas orelhas ficarem em posição de alerta e perguntamo-nos o que estaria ele ouvindo. Seria alguma secreta estação de rádio canina que só eles conseguem sintonizar? Ouvimos constantemente histórias de cães heróicos que salvaram pessoas que gritavam por socorro; eles têm uma capacidade auditiva tão sutilmente sintonizada que só pode estar alocada nos seus corações. Contudo, sofrem de um problema de audição seletiva – palavras como saia e deite não são registradas do mesmo modo que vamos passear ou comida – ,
mas, venhamos e convenhamos, um cachorrinho não fica mesmo faminto mostrando-se tão dedicado o dia inteiro? E que lugar melhor para ficar roendo vigorosamente um osso do que um confortável sofá? Quando os seus humanos chegam a casa, sentam-se e ouvem tintim por tintim tudo que aconteceu no trabalho, os suspiros abafados, jamais fazendo o outro sentir que ele preferiria estar ocupado com alguma outra coisa. Se
estão a pensar agora: “Mas quem é que fala com seus cachorros?”, pelo que sei, a resposta é bem simples: um bocado de gente. E por que não? Quem mais escuta dessa maneira? Os cães sempre se mostrarão bons
ouvintes, presumindo que você é realmente inocente. Mesmo que se prove o contrário, o seu cachorro nunca o deixará perceber que ele está entediado ou tem alguma queixa de você. De maneira absolutamente Zen, os cães incorporam um grau de fidelidade, constância e firmeza em relação a seus donos que, em geral, os discípulos Zen só aspiram conseguir em relação a seus Mestres. Os cães mostram-nos como é uma natureza
altruística; ajudam-nos a deixar de lado nossas tendências ao egoísmo e a preocupar-nos exclusivamente conosco para subir às alturas do compromisso e da dedicação, onde finalmente poderemos aprender a instalar-nos, e lá ficarmos firmemente comprometidos com nossas ideias espirituais. Podemos todos aprender a abster-nos de julgamentos com os nossos companheiros de quatro patas que nunca nos julgam pelas roupas que vestimos, pelo emprego que temos ou pela companhia que compartilhamos. Eles tratam a todos com a mesma generosidade de espírito, voltando sempre a merecer o título de Melhor Amigo do Homem. Cão Zen nasceu de um desejo de mostrar o puro e inalterável amor canino. Não só o dos mais doces, que são — tãããããão — engraçadinhos, mas o dos verdadeiros cães da raça McCoy, que são Zen de uma maneira que só eles sabem ser. Esperamos que, mesmo por alguns momentos, este livro, mais do que um tributo aos peludos pequenos Mestres Zen, nos ajude a dar uma boa olhada sobre nós mesmos pelo espelho da honestidade, lealdade, dedicação e espírito surpreendentemente puro dos cães. Quando encontro um cão claramente em sintonia com a sua própria natureza, olho-o bem nos olhos e faço a seguinte pergunta: “E então, o que fazes para ganhar a vida?” Inevitavelmente, qualquer um digno de sua raça tem a mesma resposta: “Eu sou apenas um cão.” E simplesmente entrega todo o seu coração ao que veio fazer aqui – servir a seus donos, ensinar-nos o que é o amor incondicional, dar-nos o presente de aprender a estar presente – ele cumpre sua missão de cão como um verdadeiro Mestre. Pois, no final das contas, a presteza da mente é que é a sabedoria. Observe uns olhinhos fixos no sanduíche que está a comer e logo ficará a saber que eles estão atentos e conscientes do fato de que, se fizerem aquele olhar de eu-um-pobre-coitado-faminto, naquele momento você poderá sucumbir. E, se acontecer que um biscoito caia no chão da sala de estar, você descobrirá que a sua desenvolvida mente Zen captou o fato, pois, antes que a chuva pare de cair, ele já terá conseguido ouvir um pássaro e perceber que o sol está a caminho. Mesmo deitado sob o sofá, conseguirá encontrar aquele biscoito que escapou da mão do seu dono."

Via e-mail da minha amiga Mariza Schmidt.

domingo, 7 de junho de 2009

Dois Mestres e o Chá


Há mais um menos um século, no Japão, vivia um mestre Zen chamado Nan-in. Um dia, um professor universitário veio visitá-lo em seu templo.

- Entre, venha tomar um chá! - convidou o velho mestre, levando o professor para a sala de chá.
Eles sentaram-se, um em frente ao outro, junto a uma pequena mesa. O velho mestre sentou em silêncio, perfeitamente relaxado e confortável. Ocasionalmente ele sorria para o professor; outras vezes ele contemplava os jardins encantadores pela janela.

Porém, o professor começou a ficar impaciente com o silêncio. Ele pigarreava, batia os dedos na mesa distraídamente, fixava seus olhos com ansiedade para a porta por onde o chá já deveria ter chegado. Finalmente o professor não suportou mais o silêncio. A única coisa que veio a sua mente foi discorrer sobre alguns ensinamentos que ele tinha recentemente dado na universidade. Desta forma, limpou sua garganta e começou seu longo discurso.

O velho mestre, Nan-in, foi todo ouvidos e parecia ter um olhar de infinita curiosidade. Assim sendo, o professor sentiu-se encorajado a continuar, afinal de contas ensinar era o seu trabalho.
Após meia-hora, o chá ainda não havia chegado, mas o professor pensou que poderia ser mal-educado de sua parte chamar atenção para o fato. Ele continuou seu discurso, enquanto Nan-in continuou com sua postura de ouvinte atencioso.

Finalmente um atendente trouxe uma bandeja com um bule de chá cerimonial e duas xícaras para os homens. Nan-in sorriu relaxadamente. Seguindo deliberadamente os rituais de chá japonês, ele colocou cuidadosamente a xícara de chá em frente ao seu visitante tagarela. Então, vagarosamente começou a encher a xícara. Ele continuou enchendo, enchendo, enchendo até que o chá começou a derramar para fora da xícara e caiu no colo do professor. Neste momento o professor interrompeu seu discurso abruptamente e exclamou:

- O que você está fazendo? Você não vê que a xícara está cheia e já não há mais espaço?
Nan-in olhou atentamente para seu visitante e disse:

- Assim como esta xícara, senhor, você também está muito cheio. Você tem muitas idéias, conceitos e opiniões. Por favor, primeiro esvazie sua própria xícara ( referindo-se a mente do visitante ), e então juntos nós poderemos aprender alguma coisa útil e interessante.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O problema sujeito-objeto

Nosso problema básico como seres humanos é a relação su­jeito-objeto. Na primeira vez que ouvi essa afirmação, anos e anos atrás, pareceu abstrata e irrelevante para minha vida. Ape­sar disso, toda a nossa desarmonia e dificuldade decorrem de não sabermos o que fazer a respeito da relação entre sujeito e objeto. Em termos comuns, do dia-a-dia, o mundo está dividido em sujeitos e objetos. Eu olho para vocês, vou para o trabalho, sento-me numa cadeira. Em cada um desses casos, penso em mim como o sujeito em relação com os objetos: vocês, meu trabalho, a cadeira. Intuitivamente, no entanto, sabemos que não somos separados do mundo e que a divisão sujeito-objeto é uma ilusão. Para chegar a esse conhecimento intuitivo é que praticamos.
Se não entendermos o dualismo sujeito-objeto, veremos os objetos em nosso mundo como a fonte de nossos problemas: vocês são o meu problema, meu trabalho é meu problema, a cadeira. (Quando me considero como o problema, tornei-me objeto.) Dessa forma, afastamo-nos dos objetos que considera­mos como os problemas e vamos em busca de outros, que para nós são não-problemas. Desse ponto de vista, o mundo consiste em mim e nas coisas que agradam ou desagradam a mim.
Historicamente, a prática zen e a maioria das outras disci­plinas de meditação têm tentado resolver o dualismo sujeito-objeto esvaziando o objeto de todo conteúdo. Por exemplo, tra­balhar no MU* ou em grandes koans esvazia o objeto do condi­cionamento que vinculamos a ele. Conforme o objeto vai se tornando cada vez mais transparente, somos um sujeito contem­plando um objeto virtualmente vazio. Esse estado é às vezes chamado de samadhi. Esse é um estado de graça porque o objeto vazio não me incomoda mais. Quando atingimos esse estado, tendemos a nos parabenizar por todo o progresso que já fizemos.
Esse estado de samadhi, porém, ainda é dualista. Quando o atingimos, uma voz interna diz: “Deve ser isso!” ou “Agora estou de fato indo bem”. Permanece existindo um sujeito oculto, observando um objeto virtualmente vazio, no que acaba sendo uma separação entre sujeito e objeto. Quando nos damos conta dessa separação, tentamos acionar o sujeito também e esvaziá-lo de seu conteúdo. Quando fazemos isso, tornamos o sujeito em outro objeto ainda, com um sujeito ainda mais sutil a observá-lo. Estamos assim criando uma regressão infinita de sujeitos.
Esses estados de samadhi não são precursores da verdadei­ra iluminação porque um sujeito finamente velado está separado de um objeto virtualmente vazio. Quando voltamos à vida diária, aquele estado de graça se dissipa e mais uma vez estamos num mar de sujeitos e objetos. Prática e vida assim não se encontram.
Uma prática mais límpida é não tenta livrar-se do objeto, mas, antes, tenta enxergá-lo tal qual é. Aos poucos, aprendemos o que é ser ou vivenciar, e nesse estado não existe sujeito nem objeto. Não é que eliminemos alguma coisa; antes, reunimos as coisas. Ainda há o ‘mim’ e ainda há ‘você’, mas quando sou apenas minha vivência de você, não me sinto separado de você. Sou uno com você.
Esse tipo de prática é porém muito mais lento porque, em vez de concentrar-se num único objeto, trabalha com tudo em nossa vida. Qualquer coisa que nos aborreça ou contrarie (que, para sermos honestos, inclui quase tudo) se torna farelo para o moinho da nossa prática. Trabalhar com tudo leva a uma prática que permanece viva em cada segundo da nossa vida.
Quando aparece raiva, por exemplo, a maioria das práticas zen tradicionais nos levaria a ignorar essa raiva e a nos concen­trar em alguma coisa, como a respiração. Embora desse jeito a raiva seja posta de lado, ela voltará toda vez que formos critica­dos ou ameaçados de alguma forma. Por outro lado, nossa prá­tica é nos tornarmos a própria raiva, vivenciando-a plenamente, sem separação ou rejeição. Quando trabalhamos dessa maneira, nossas vidas se aquietam. Aos poucos, aprendemos a nos rela­cionar com os objetos problemáticos de uma forma diferente.
Nossas reações emocionais gradualmente se minimizam; por exemplo, objetos que temíamos vão perdendo seu poder sobre nós e podemos lidar com eles com mais presteza. É fasci­nante observar a mudança que ocorre; vejo-a acontecer nos ou­tros e em mim também. Esse processo nunca está completo; no entanto, estamos nos tornando cada vez mais livres e despertos.

Aluno: Como é aquilo que você descreve como diferente da prática shikantaza * tradicional?

Joko: Corretamente entendido, é muito parecido com o shikantaza, mas existe uma tendência a esvaziar a mente. É possível entrar numa espécie de experiência bruxuleante na qual o sujeito não está incluído. Essa é apenas uma outra forma de falso samadhi. Os processos de pensamento foram eliminados da percepção cons­ciente e cancelamos nossa experiência sensorial da mesma forma como seria feito com qualquer outro objeto da percepção consciente.

Aluno: Você disse que o verdadeiro propósito da prática é expe­rimentarmos nossa unidade com todas as coisas, ou apenas ser­mos nossas próprias vivências de modo que, por exemplo, esta­mos só lixando as unhas se for isso que estivermos fazendo. Mas não é um paradoxo tentar chegar até nisso?

Joko: Concordo com você: não podemos tentar ser unos com o lixar. Se tentarmos nos tornar unos com esse movimento, separamo-nos dele. O próprio esforço se derrota. Existe uma coisa, porém, que podemos fazer: podemos reparar nos pensamentos que nos separam de nossa atividade. Podemos estar cônscios de não estarmos completamente engajados naquilo que estamos fa­zendo. Isso não é tão difícil. Rotular nossos pensamentos ajuda-nos nesse sentido. Em vez de dizer “Vou me unir com o ato de lixar”, o que é dualista — pensar a respeito da atividade em vez de só executá-la —, sempre podemos observar que não o esta­mos fazendo. É tudo quanto se torna necessário.
A prática não tem que ver com passar por certas experiên­cias, com vivenciar grandes conclusões, nem com chegar em alguma parte ou tornar-se algo. Somos perfeitos como somos. Com “perfeitos” quero dizer que é isso, só. A prática é simples­mente manter a percepção consciente — de nossas atividades e também de todos os pensamentos que nos separam de nossas atividades. Quando lixamos nossas unhas ou nos sentamos para praticar, nós apenas lixamos as unhas ou nos sentamos para praticar. Uma vez que nossos sentidos estão abertos, ouvimos e sentimos outras coisas também: sons, odores e assim por diante. Quando os pensamentos surgem, observamos que surgiram e regressamos à nossa experiência direta.
A percepção consciente é nosso verdadeiro ser. E o que somos. Por isso, não temos que tentar desenvolver a percepção consciente; nós apenas precisamos observar como bloqueamos nossa conscientização, com pensamentos, fantasias, opiniões e julgamentos. Ou estamos na percepção conscientizadora, que é o nosso estado natural, ou estamos fazendo alguma outra coisa. O sinal do aluno maduro é que, na maior parte do tempo, ele não faz outra coisa. Ele está apenas ali, vivendo sua vida. Nada especial.
Quando nos tornamos uma percepção consciente aberta, nossa habilidade para os raciocínios necessários torna-se mais aguda, e todo o nosso input sensorial se torna mais claro, mais intenso. Depois de algum tempo sentados na prática, o mundo parece mais brilhante, os sons são mais intensos, e há uma riqueza da captação sensorial que é apenas o nosso estado natu­ral se não estivermos bloqueando o acesso às experiências com nossas mentes rígidas e preocupadas.
Quando começamos a prática, podemos manter a percep­ção consciente só por intervalos muito breves e logo desviamos a nossa atenção do presente. Prisioneiros de nossos pensamen­tos, não reparamos nem que estamos divagando. Então nos apa­nhamos de volta e recuperamos a atenção na prática sentada. A prática inclui tanto a percepção consciente de nossa postura sentada como a percepção consciente de termos divagado. Após anos de prática, essas divagações diminuem até quase desapare­cerem, embora isso nunca ocorra de forma radical.

Aluno: Os sons e odores e também as nossas emoções e pensa­mentos são todos partes da nossa prática sentada?

Joko: Sim. É normal que a mente produza pensamentos. A prá­tica é tomar consciência de nossos pensamentos sem nos perder­mos neles. Caso nos percamos, preste atenção nisso também.
O zazen na realidade não é complicado. O verdadeiro pro­blema é: nós não queremos fazê-lo. Se meu namorado começa a olhar para as outras mulheres, por quanto tempo permanecerei simplesmente disposta a vivenciar isso? Todos temos problemas constantes, mas nossa disponibilidade para somente ser está nos últimos itens, em nossa lista de prioridades, até termos praticado o suficiente para termos fé em apenas sermos de modo que as soluções possam aparecer naturalmente. Um outro indicador de uma prática em fase de amadurecimento é o desenvolvimento dessa confiança e dessa fé.

Aluno: Qual é a diferença entre permanecer totalmente absorvi­do no lixar das unhas e em estar consciente de estar totalmente absorvido no lixar das unhas?

Joko: Estar consciente de estar absorvido em lixar as unhas é ainda um dualismo. Você está pensando “Estou totalmente ab­sorvido lixando as minhas unhas”. Essa não é a verdadeira presença atenta. Na verdadeira presença atenta, a pessoa está só fazendo. A conscientização de que se está absorvido numa dada experiência pode ser um passo útil no caminho, mas ainda não é ter chegado efetivamente lá, porque ainda há o pensar sobre isso. Ainda há uma separação entre a percepção consciente e o objeto dessa percepção consciente. Quando estamos lixando as unhas, não estamos pensando em prática. Numa boa prática, não estamos pensando “Estou na prática”. Uma boa prática é fazer o que estamos fazendo e observar quando divagamos. Quando já estamos nessa prática há muitos anos, percebemos quase de imediato quando começamos a divagar.
Focalizar a atenção em algo chamado “prática zen” não é necessário. Se, da manhã até a noite, formos tomando conta de uma coisa após a outra, de maneira completa e cabal e sem pensamentos concomitantes do tipo “Sou uma boa pessoa por ter feito isso”, ou “Não é maravilhoso eu poder tomar conta de tudo?”, então isso será suficiente.

Aluno: Minha vida parece consistir em camadas sobre camadas de atividades, todas desenrolando-se ao mesmo tempo. Se eu fizesse apenas uma coisa por vez e depois passasse para a se­guinte, eu não conseguiria dar conta de tudo que realizo normal­mente durante um dia.

Joko: Duvido. Fazer uma coisa de cada vez e entregar-se por completo a essa execução é o meio mais eficaz de se conseguir viver, porque não há bloqueio nenhum no organismo. Quando vivemos e trabalhamos dessa maneira, somos muito eficientes sem nos afobarmos. A vida é sem acidentes.

Aluno: Mas e quando uma das coisas é ter de refletir sobre um assunto, outra é atender o telefone, uma terceira é uma carta para se escrever...

Joko: Mesmo assim, toda vez que nos voltamos para uma outra atividade, se estivermos completamente presentes, apenas fazen­do o que estamos fazendo, a tarefa será concluída muito mais depressa e melhor. Em geral, no entanto, incluímos na atividade vários pensamentos subliminares como “Preciso conseguir fazer todas essas coisas também — ou minha vida simplesmente não serve”. A atividade pura é muito rara. Quase sempre existe uma sombra, um filme sobre ela. Podemos não estar conscientes disso, mas perceber apenas uma certa tensão. Não existe tensão na atividade pura, além da contração física exigida para que a atividade em si seja executada.
Há muitos anos, num sesshin, eu costumava ter a experiên­cia de apenas tornar-me o cozinhar, o arrancar as ervas daninhas, ou o que fosse que eu tivesse que fazer, mas ainda existia um assunto sutil ali. E sem a menor hesitação, assim que o sesshin tinha evaporado um pouco que fosse, eu voltava completamente a toda a mesma história de sempre. Eu não me havia tornado una com o objeto.

Aluno: De volta ao exemplo de lixar as unhas: se realmente estamos apenas fazendo isso, então não estamos em absoluto cientes de nós, ao passo que, se lembramos de que estamos fazendo isso, retornamos ao dualismo sujeito e objeto e não estamos mais entregues à pura atividade. Isso não significa, no entanto, que quando estamos só lixando as unhas não estamos absolutamente ali? Não existimos mais?

Joko: Quando estamos entregues à pura atividade, somos uma presença, uma percepção consciente. Mas isso é tudo o que somos. E isso não se parece com nada. As pessoas supõem que o estado iluminado é inundado de sentimentos amorosos e emo­ções calorosas. Porém, o verdadeiro amor, ou a verdadeira compaixão, é simplesmente estar não-separado do objeto. Em essên­cia, é um fluxo de atividade na qual não existimos como um ser separado de nossa atividade.
Sempre existe um certo valor na prática que tem caracterís­ticas dualistas. Um certo treino e um descondicionamento desen­rolam-se em qualquer situação de prática sentada. Mas, até que tenhamos superado esse dualismo, não conseguiremos conhecer a liberdade final. Não existe uma liberdade final enquanto não houver apenas um só, ali.
Podemos achar que não nos importamos com a liberdade final nesse sentido. A verdade, no entanto, é que nós a desejamos.

Aluno: Se uma pessoa está sentindo amor e outra pessoa está sentindo ódio, existe uma diferença em como devem praticar?

Joko: Não. O amor ou a compaixão genuína é uma ausência dessas duas emoções concebidas em nível pessoal. Somente uma pessoa pode amar ou odiar no sentido usual. Se não existe pessoa, se estamos apenas absorvidos no viver, essas emoções estarão ausentes.
Na prática de concentração que descrevi primeiro, uma vez que o sentimento de raiva é um objeto, o que fazemos é simples­mente ignorá-lo. Empurramos a emoção para o lado e esvazia­mos o koan de seu conteúdo. O problema dessa abordagem é que, quando voltamos à vida diária, não sabemos o que fazer com as nossas emoções, porque elas não foram resolvidas. São um território desconhecido pela prática zen clássica. Na prática da conscientização, nós apenas vivenciamos o pensamento e a emoção e suas sensações concomitantes. Os resultados são muito diferentes.

Aluno: Na prática shikantaza que me ensinaram, as emoções fazem parte da prática: elas aparecem e nós nos sentamos para praticar com elas.

Joko: Sim, a prática shikantaza pode ser entendida dessa manei­ra. Temos apenas que nos acautelar quanto às armadilhas.

Aluno: Nos sesshins mais longos e difíceis, às vezes me sinto como Gordon Liddy, com minha mão sobre a chama de uma vela para saber quanta dor consigo suportar. No velho estilo da prática do samadhi, eu penso que o teste do samadhi da pessoa era sua capacidade de não sentir a dor mediante o estado de graça e a concentração.

Joko: Certo. Então o objeto é cancelado.

Aluno: Nesse estilo de prática, o sesshin torna-se urna espécie de prova de resistência. Você poderia comentar como a dor funcio­na nesse sistema para não ser masoquismo?

Joko: Uma dor moderada é um bom mestre. A vida mesma apresenta a dor e também inconveniências. Se não sabemos como lidar com a dor e com a inconveniência, não sabemos muito a nosso próprio respeito. Uma dor extrema não é necessá­ria, no entanto. Se a dor for excessiva, pode-se usar um banco ou a cadeira, ou até mesmo pode-se deitar. Mesmo assim, existe um certo valor em a pessoa dispor-se a ser a dor. A separação sujeito-objeto ocorre porque não estamos dispostos a ser a dor que associamos com o objeto. E por isso que nos distanciamos dele. Se não nos entendemos em relação à dor, corremos dela quando aparece, e perdemos esse imenso tesouro de conscienti­zação com a vivência direta da vida. De modo que, até certo ponto, é útil sentar-se com a dor para podermos recuperar uma consciência mais plena de nossa vida tal qual ela é.
Quando atendo alunos em daisan *, a maior parte do tempo meus joelhos ficam doendo. Então estão doendo: é só isso. Sobretudo quando ficamos mais velhos, é útil ser capaz de estar com a nossa vivência e viver plenamente a vida. Parte do que viemos aqui aprender é como estar com o desconforto e a incon­veniência.
De certa forma, a dor é um grande mestre. Sem um certo grau de desconforto, a maioria das pessoas aprenderia muito pouco. Dor, desconforto, dificuldade e até mesmo a tragédia podem ser grandes instrutores, em especial quando ficamos mais velhos.

Aluno: Dentro da consciência ordinária, tudo o que esteja além de nós é um objeto?
Joko: Se pensarmos no eu da pessoa como um objeto entre outros, até mesmo ele pode ser um objeto. Posso observar a mim mesma, posso ouvir a minha voz, posso cutucar as minhas per­nas. Desse ponto de vista, sou um objeto também.

Aluno: Então, objetos incluem sentimentos e estados de ânimo, além das coisas do mundo?

Joko: Sim. Embora pensemos em nós como sujeitos e em tudo o mais como objetos, isso é um erro. Quando nós separamos as coisas umas das outras, tudo se torna um objeto. Só existe um único sujeito verdadeiro — que é o absolutamente nada. O que é?
Aluno: A percepção consciente.

Joko: Sim, a percepção consciente, embora a palavra seja inade­quada. A percepção consciente não é nada e, no entanto, o mundo inteiro existe através dela.
Do livro: Nada de Especial - Vivendo Zen - Charlotte Joko Beck

* Mu — literalmente "não" ou "nada" — é normalmente proposto para os iniciantes como um meio de focalizar sua atenção.
* Shikantaza — "apenas sentar'': uma forma pura de meditação sentada, sem a ajuda da contagem da respiração ou da prática do koan, na qual a mente mantém-se bastante concentrada, alerta e calmamente cônscia do presente.
* Daisan: uma entrevista formal entre aluno e instrutor no decurso da prática meditativa.

sábado, 4 de abril de 2009

A Promessa Que Não É Cumprida


"A prática tem de ser um processo de intermináveis decepções. Temos de enxergar que tudo o que exigimos (e até obtemos) irá depois nos decepcionar. Essa descoberta é nossa mestra. É por isso que devemos tomar cuidado com amigos que estão em dificuldades, para os quais não devemos demonstrar nossa simpatia acenando-lhes com falsas esperanças e promessas de tranqüilidade. Essa espécie de simpatia - que não é a verdadeira compaixão - simplesmente retarda mais seu aprendizado. Em certo sentido, a melhor ajuda que podemos oferecer a alguém é apressar seu desapontamento. Embora isso pareça cruel, não o é na verdade. Ajudamos aos outros e a nós mesmos quando começamos a enxergar que todas as nossas exigências habituais são mal direcionadas".

Extraído do livro "Nada Especial" de Charlotte Joko Beck - Responsável pelo Centro Zen de San Diego, California, USA.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Qualidades da natureza da mente

"A mente é o mais sutil e recôndito aspecto da nossa condição relativa, mas não é difícil notar a sua presença. Basta observar os pensamentos e como eles nos enredam no seu fluxo. Se perguntarmos o que é a mente a resposta é o fluxo ininterrupto dos pensamentos que surgem e desaparecem. Ela tem a capacidade de julgar, de raciocinar, de imaginar, etc. dentro dos limites de espaço e tempo. Mas, além da mente, além dos pensamentos, existe o que se denomina 'natureza da mente', o estado verdadeiro da mente, além de quaisquer limitações. Como está além da mente, o que fazer para nos acercarmos de uma compreensão a seu respeito? Tomemos, por exemplo, o espelho. Olhamos no espelho e vemos refletidas as imagens de tudo o que está diante dele, mas não vemos a natureza do espelho. Mas o que significa a 'natureza do espelho'? Quer dizer a capacidade de refletir, descrita como a sua claridade, transparência, pureza, limpidez, condições indispensáveis para que os reflexos possam manifestar-se. A natureza do espelho não é algo que se veja, e a única forma de concebê-la será através das imagens refletidas no espelho. Da mesma forma, apenas conhecemos e vivenciamos o que esteja relacionado ao corpo, à voz e à mente. Contudo, é assim mesmo que somos levados a compreender a sua verdadeira natureza."

"Dzogchen: The Self-Perfected State" by Namkhai Norbu Rinpoche.
Translated from the Italian by John Shane.
Edited by Adriano Clemente.
New York: Arkana, 1989.
Available at Ligmincha's Bookstore.
Traduzido para o português por Tenzin Namdrol