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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A idade chegou...

Pois, é, gente. Agora sou uma idosa por lei! Até prá isso tem lei. Mas nem precisava porque, quando passei um pouco dos trinta anos, percebi que o taxista, os porteiros, o moço do mercado, todos passaram a me chamar de "senhora". Até aí, a ficha não caiu porque eu sempre aparentei ter menos idade do que tinha, não tinha rugas nem excesso de peso, pelo contrário, bem magrinha. Agora, estou com sessenta. Hoje, achei que podia efetuar um pagamento na lotérica, me troquei assim que acordei e saí. Chegando na lotérica, a moça informa que a "senhora" tinha que pagar direto na boca do caixa do banco. No mesmo ritmo de mil quilômetros por hora, desci cerca de dez quarteirões, atravessando ruas lotadas de carros que, mesmo sabendo da faixa de pedestre, não respeitam. O pedestre é invisível! A idosa aqui, então... passam por cima! Já no banco, me dei por satisfeita porque estava vazio e a minha senha era a próxima. Paguei e tornei a voltar na mesma velocidade só que aí, subindo! Em casa achei que tinha feito uma coisa incrível para uma idosa, uma façanha em exercício físico! Aí, conto pros filhos e eles me olham com aquele olhar de "e daí", como se fosse a coisa mais normal do mundo! Quero ver eles fazerem o mesmo quando estiverem "idosos". Será que vivo prá ver?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nada dura. Nothing lasts.

Reflita sobre isto: A realização da impermanência é, paradoxalmente, a única coisa que podemos segurar, talvez a nossa única posse duradoura. É como o céu ou a terra. Não importa o quanto tudo à nossa volta possa mudar ou entrar em colapso, eles suportam. Digamos que passamos por uma crise emocional arrasadora. . . toda a nossa vida parece estar se desintegrando. . . nosso marido ou esposa, de repente nos deixa sem avisar. A terra ainda está lá, o céu ainda está lá. Claro que, mesmo a terra treme de vez em quando, apenas para nos lembrar que não podemos tomar nada como garantido. . . .

Reflect on this: The realization of impermanence is paradoxically the only thing we can hold on to, perhaps our only lasting possession. It is like the sky, or the earth. No matter how much everything around us may change or collapse, they endure. Say we go through a shattering emotional crisis . . . our whole life seems to be disintegrating . . . our husband or wife suddenly leaves us without warning. The earth is still there; the sky is still there. Of course, even the earth trembles now and again, just to remind us that we cannot take anything for granted. . . .

terça-feira, 18 de maio de 2010

Saiba porque a mente possui 84 mil venenos. - Vya Estelar entrevista Lama Tsering por Angelo Medina

Lama Tsering: "O carma é algo criado por nós e tudo o que é criado pode ser alterado." 

Nesta entrevista ao Vya Estelar, Lama Tsering Everest ensina como dominar os venenos da mente, a raiva e alterar carma negativo em positivo. Ela explica a relação entre carma e impermanência, um dos principais alicerces da filosofia budista.

Nascida nos EUA, Lama Tsering foi por mais de onze anos, intérprete de S. Ema. Chagdud Rinpoche. Depois de completar em 1995, um retiro de três anos, recebeu a ordenação de Lama, sendo autorizada a dar ensinamentos e iniciações.

Neste mesmo ano, foi convidada a dar ensinamentos no Brasil, para onde se mudou logo depois. Reconhecida por seu estilo caloroso e bem-humorado, Lama Tsering foca seus ensinamentos no desenvolvimento da compaixão e na aplicação da filosofia budista na vida diária.  

Vya Estelar - O que são e quais são os venenos da mente?

Lama Tsering - Os venenos da mente são divididos em três categorias principais. A primeira é o apego ou desejo, que inclui o ficar preso física ou mentalmente a pessoas, objetos e fenômenos. A segunda é a raiva, que significa rejeitar, não querer, afastar algo de você. O terceiro é a ignorância, que significa não ter uma noção clara da vida, não compreender a natureza verdadeira das coisas. Estes venenos agem de maneira interdependente. O que ocorre é que, quando não temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos e apegos. E quando não conseguimos o que queremos, criamos aversão e ficamos com raiva. Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas. Estas energias são expressas em nossas ações, palavras e pensamentos, causando um sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete infinitamente.

Vya Estelar - Existem 84.000 venenos na mente?

Lama Tsering - Sim. Eles são uma combinação dos três venenos principais, sendo que podemos adicionar a eles o orgulho e a inveja. Estas combinações vão ficando cada vez mais sofisticadas e representam as diferentes formas errôneas com que nossa mente pode atuar.

Vya Estelar - A raiva seria o principal veneno da mente?

Lama Tsering - A raiva é o veneno mais grosseiro e o que traz as conseqüências mais terríveis, cruas e diretas. O desejo é mais sutil e, em nossa sociedade atual, é até mesmo considerado uma coisa boa, apesar de trazer tanto sofrimento. Mas o veneno fundamental, realmente, é a ignorância, é o não reconhecimento da natureza verdadeira dos fenômenos. Não podemos dizer que a ignorância seja o pior veneno, mas ele é o primeiro, o que dá origem a todos os outros.

Vya Estelar - Como fazer para eliminar a raiva ou domá-la?

Lama Tsering - Há várias formas para começar a lidar com nossos venenos mentais. A primeira coisa a ser feita é reeducar-nos, no sentido de identificar os venenos em nossa própria mente, suas conseqüências e o que podemos esperar deles. Parece óbvio dizer que temos que nos reeducar, mas não é. Por exemplo, achamos que é OK ficar com raiva quando alguém faz algo errado conosco, nos fere, é injusto. E não é OK. A raiva é um veneno mental e produz experiências dolorosas para quem a sente, não importando se o motivo que a tenha criado seja "aparentemente justificável". Você tem que ser educado para saber que não deve tomar veneno de rato, por exemplo. Se você entender isso, vai saber que se tomar veneno de rato, ainda que o gosto seja doce, sofrerá um dano imenso.

Vya Estelar - Há um senso comum entre as pessoas de que devemos expressar nossa raiva, "pôr para fora". O Budismo acredita nisso de alguma forma?

Lama Tsering - Não, o Budismo não acredita nisso, porque os venenos da mente agem como um bumerangue. Se você atirar sua raiva adiante, o que você vai receber de volta é mais raiva. Nós não compreendemos que nossas ações, palavras e pensamentos são como bumerangues, e não como uma bola, que jogamos em direção a alguém e lá ela fica. O bumerangue é atirado adiante e ele volta. Quando não entendemos essa regra básica, nos tornamos nossas próprias vítimas e, feridos e ignorantes, jogamos o bumerangue de volta, causando sofrimento atrás de sofrimento. O Senhor Buda ensinou que é importante termos paciência, mesmo quando momentos difíceis acontecem, porque estes momentos são resultado de bumerangues lançados por nós mesmos, anteriormente. Se um bumerangue estiver voltando, aceite-o, tenha paciência, deixe que ele caia. Não atire mais três ou quatro de volta, porque eles também vão voltar.

Vya Estelar - É melhor "engolir" a raiva?

Lama Tsering - Melhor engolir do que cuspir de volta. Mas engolir também não ajuda. Por isso, precisamos nos reeducar. Temos que refletir e contemplar as conseqüências dos venenos mentais, para começarmos a obter elementos para lidar com eles. No entanto, o que precisamos realmente é cortar esses venenos. E isso conseguimos fazer através da meditação. Mas, enquanto não desenvolvermos estas técnicas de contemplação e meditação, precisamos evitar a raiva. Se ainda não tivermos os meios hábeis para lidar com a situação, é melhor correr do que reagir. Ou talvez você deva segurar sua respiração por um instante e esperar a raiva passar. Quando você estiver um pouco mais treinado, talvez não precise correr nem prender a respiração, e consiga converter a situação negativa em amor e compaixão. Talvez consiga transformar a raiva, lembrando-se de que todos querem ser felizes e as pessoas fazem o que fazem porque acham que aquilo trará felicidade. Ao lembrar-se disso, pode cultivar a compaixão e ver que você e aquela pessoa não são diferentes: você já agiu raivosamente antes porque achava que aquilo o faria feliz. E, compassivo pelo fato de que aquela pessoa não sabe das conseqüências que a raiva traz, você converte sua emoção negativa em emoções positivas, como amor e compaixão. E mais tarde, quando você já estiver ainda mais treinado, poderá não apenas converter o negativo em positivo, mas liberar as emoções negativas em sua própria essência, cuja natureza é a perfeição. Grandes mestres e praticantes lidam com sua raiva dessa forma. A raiva ocorre, mas ela é livre, assim como as nuvens, que ocorrem, mas dançam livres no céu.

Vya Estelar - O que é a impermanência?

Lama Tsering - Encare sua vida como se fosse um banco no parque, em uma tarde de clima ameno. Você vai até lá passar algumas horas, sentado, aproveitando tudo ao máximo: a brisa fresca, os pássaros cantando, as borboletas, o sol batendo no rosto. Tudo aquilo dura pouco tempo e vai chegar ao fim. Por isso, você deve aproveitar o momento e criar boas condições. Você não deve se apegar ao banco. Não tente colocar uma etiqueta nele com o seu nome, querendo mantê-lo para você! Isso vai impedi-lo de sentir o prazer e a liberdade de estar lá, simplesmente sentado. E se alguém se sentar com você, seja gentil, tratando-a com amor e compaixão. Não brigue com esta pessoa. Seu tempo é muito curto. Vocês estão ali apenas de passagem. Ao lembrarmos de que tudo na vida é impermanente e chega ao fim, podemos ser generosos com ela, sabendo que provavelmente ela nunca pensa no fato de que terá que deixar o banco em breve, assim como você. Todos nós queremos manter as coisas e não conseguimos. Temos que ter compaixão por elas, e por nós mesmos. Compreender a impermanência nos faz ricos: temos tudo neste momento e podemos ser generosos, abertos, decididos a fazer o que pudermos para beneficiar a todos com o nosso amor, sem medo de perder.

Vya Estelar - É possível reduzir o carma?

Lama Tsering - Sim, o carma é purificável através da educação e da meditação. O carma é algo criado por nós, e tudo o que é criado pode ser alterado. Só o que está além da criação - como a natureza absoluta da nossa mente - não pode ser alterado. Há duas formas de eliminar o carma negativo: uma delas é experienciar as situações da vida sem rejeitá-las, e recebê-las com amor e compaixão, transformando carma negativo em positivo; a outra forma é purificar o carma negativo antes de vivenciá-lo, e ir além do carma, não importando se ele é positivo ou negativo. Esta segunda maneira de abordar a questão é crucial, mas só pode acontecer depois de treinarmos nossa mente através de avançadas técnicas de meditação. De maneira mais imediata, a melhor coisa a ser feita é transformar carma negativo em carma positivo. Mas precisamos ter em mente que produzir carma positivo não é uma solução absoluta para nosso sofrimento. Porque todo carma, positivo ou negativo, é impermanente. Isso significa que, seja qual for o resultado positivo que você crie, ele também vai mudar, mais cedo ou mais tarde. É um ciclo: o que é positivo se transforma em negativo e o que é negativo, em positivo. A única saída é obter a realização da iluminação e tirar você e sua mente deste sistema cíclico de existência. Enquanto isso não ocorre, faça seu melhor e crie condições positivas para suas experiências futuras, aceitando o seu carma, vivendo-o da melhor forma posssível e o purificando.

Vya Estelar - Como fazer para terminar um relacionamento com alguém com quem não combinamos muito, sem criar carma negativo e nem sofrimento?

Lama Tsering - Podemos dizer que a principal religião de nossa sociedade atual é o amor - nossas músicas, nossos filmes e nossos anseios são todos a respeito de relacionamentos - e, no entanto, nós nem ao menos sabemos o que é o amor. As pessoas se preocupam muito com os relacionamentos mas, na verdade, elas se preocupam mesmo é consigo mesmas. Elas querem ter um amor porque isso fará com que elas se sintam bem. E o Budismo traz um novo paradigma a este respeito: amar é querer que o outro seja feliz. Ao amar, devemos nos preocupamos com o bem-estar do outro e não em atender aos nossos interesses. Se você está com uma pessoa, é por causa do carma. Enquanto estiver com ela, você deve fazê-la o mais feliz possível. E se você deve terminar ou não o relacionamento, vai depender se isso vai fazê-la mais feliz ou mais infeliz. Sua preocupação não deve ter nada a ver com a sua própria felicidade. Se você tiver isto em mente, é mais provável que tome a decisão mais correta. O relacionamento vai acabar de um jeito ou de outro. Lembre-se da impermanência: você e a outra pessoa não duram para sempre. O próprio relacionamento é impermanente e vai acabar naturalmente, quando não houver mais carma entre vocês. Então, aproveite o momento, e não se esqueça de pensar no bem-estar dos demais, mais do que no seu próprio. Isso é libertador.

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/lama_tsering.htm


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Muralhas


"Pela infalível lei da impermanência às muralhas: da intolerância, da ignorância, das diferenças sociais, dos conflitos étnicos, das guerras comerciais, da indigência política, da segregação racial, do abuso compulsivo às minorias, do abuso de poder, das injustiças que devastam o planeta, das obstruções obscenas à educação e à cultura, da falta de liberdade de expressão, dos abusos de menores, da violência às mulheres, da falta de cuidados médicos, da política como instrumento de enriquecimento, do desamparo aos idosos, das máscaras governamentais, das soberbas quantidades de dinheiro para armas que exterminam inocentes, dos racismos institucionais, da falta de valor pela vida humana, das bárbaras matanças dos animais, da destruição da fauna e da flora, das contaminações dos mares, rios e atmosfera! Devemos restituir a prática do bem para derrubar todas estas muralhas que impedem a evolução da espécie humana como seres livres num estado de direito pleno e democrático onde a justiça seja apreciada em todos os átomos de todas as coisas tal qual a própria ordem natural do universo."

Paz! Karma Tenzin.

domingo, 8 de novembro de 2009

A Arte da Imperfeição - por Adília Belloti

Não sou muito chegada a repassar mensagens que me chegam por e-mail, mas essa é tão a minha cara que acho que a pessoa que me mandou, manienta também que nem eu, costurou ela própria a carapuça só olhando prá mim, calculando a medida no olhômetro. Ou então, eu olhando para meu wabi sabi, não seria "uma boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso"? Minha querida, Si. Estou repassando seu e-mail via blog!

A arte da Imperfeicão


Adília Belloti


Não sei quanto a você, mas eu ando definitivamente exausta de correr atrás da perfeição. No outro dia me peguei medindo as toalhas de banho dobradas para que elas formassem impecáveis pilhas no meu armário. Uma amiga me diz que arruma os vidros de tempero por ordem alfabética!? E o pediatra solta um comentário bem-humorado sobre mães que se sentem pessoalmente insultadas quando seus filhos ficam gripados. Como se gripe fosse uma espécie de tinta que manchasse a perfeição dos seus pimpolhos... Nosso índice de tolerância aos "defeitos de fabricação" do universo anda mesmo muito baixo. E isso nos torna a espécie mais reclamona do universo, provavelmente a única, mas é que tenho algumas dúvidas se bois e vacas interiormente não reclamam daquelas moscas sempre em volta dos seus rabos... Passamos um bocado de tempo tentando caber nas molduras que inventamos para nós. Isso quando escapamos de tentar vestir à força as expectativas que OUTROS criaram para NÓS. Senão, me digam por que seres humanos razoáveis investiriam tanto tempo, dinheiro e energia para tentar recuperar a imagem que tinham aos 18 anos? Por estas e por outras tantas foi que quando terminei de ler aquele livrinho senti que tinha recebido uma revelação divina! É só um livreto, mas, ao contrário, desses livros bonitinhos que a gente compra como se fosse um cartão para dizer "Feliz Aniversário" ou "Como eu gosto de você", não é tão fácil assim de ler. Muito menos de pôr em prática os conselhos da autora. Em português acabou chamando "A arte de viver bem com as imperfeições". Uma pena, eu penso. O título em inglês é "The Art of Imperfection" ou A Arte da Imperfeição. Assim, simplesmente. Teria sido melhor. Porque é disto que Véronique Vienne fala no seu pequeno livro: das formas de perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo perfeito que tentamos, sempre em vão, construir para nós. Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre tem um pequeno erro, um minúsculo defeito, apenas para lembrar a quem olha de que só Deus é perfeito? Pois é, a Arte da Imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa tola condição humana. Véronique Vienne dividiu seu manual em dez capítulos de títulos muito sugestivos: a arte de cometer erros, a arte de ser tímido, a arte de se parecer consigo mesmo, a arte de não ter nada para vestir, a arte de não ter razão, a arte de ser desorganizado, a arte de ter gosto, não bom-gosto, a arte de não saber o que fazer, a arte de ser tolo, a arte de não ser nem rico nem famoso. E encerra o livro com 10 boas razões para ser uma pessoa comum. "A história está cheia de criaturas incompetentes que foram muitíssimo amadas, desajeitados com personalidades cativantes e gente boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso. O segredo? Aceitar nossas falhas com a mesma graça e humildade com que aceitamos nossas melhores qualidades", ela diz. E propõe: "Perdoe a si mesmo. (...) Você não precisa ser perfeito para ser um ser humano bem-sucedido. De fato, com mais freqüência do que imaginamos, o desejo de acertar impede as coisas de melhorarem e a necessidade de estar no controle aumenta a desordem e o caos". A Arte da Imperfeição, no entanto, não se limita ao reconhecimento das imperfeições humanas. Também tem a ver com nosso jeito de olhar para as coisas mais banais, mais corriqueiras e enxergá-las com outros e mais benevolentes olhos. Leonard Koren, um designer americano, publicou alguns livros tentando revelar para o nosso jeito ocidental as delicadezas do olhar wabi sabi. Wabi sabi é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é um jeito de "ver" as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. Contam que o conceito surgiu por volta do século 15. Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição. O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte; efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair. Wabi sabi é olhar para o mundo com uma certa melancolia de quem sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela. Para os olhos artistas de Leonard Koren wabi sabi é inseparável da sabedoria budista que ensina: Todas as coisas são impermanentes. Todas as coisas são imperfeitas. Todas as coisas são incompletas. Daí olhar para elas de um modo wabi sabi é ver: A beleza que existe naquilo que tem as marcas do tempo (a velha cadeira de balanço com sua pintura já gasta tomando o solzinho que entra pela janela é wabi sabi) A beleza do que é humilde e simples (em vez de sofisticado e cheio de ornamentos inúteis) A beleza de tudo que não é convencional (quer algo mais wabi sabi do que servir à luz de velas e em toalhas de renda um simples hamburguer?) A beleza dos materiais que ainda guardam em si a natureza (wabi sabi é definitivamente papel, algodão, velhos e nobres tecidos, nada de plástico) A beleza da mudança das estações (que tal experimentar descobrir os primeiros verdes fresquinhos e brilhantes que anunciam a primavera?) A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranquilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, "a perfeição pertence a um mundo imaginário".

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Agende-se?

É impressionante como não podemos contar com o que planejamos, com o que escrevemos na nossa agenda. Hoje desmarquei dentista porque passei mal durante a noite e fiquei com uma dor de cabeça daquelas de destampar o côco! Já tendo tomado um bocado de remédios, vários de copos de água filtrada e natural, feito Do-In, usado métodos da medicina tibetana, não consegui ficar livre da danada. Comecei a sentir náuseas e uma vontade de vomitar. Tomei um Dramin. Não tomei Ormiguein porque tem muita cafeína e a única coisa que eu queria era apagar, dormir! Aí, já viu, né? Dramin dá sono! Resultado? Troquei a noite pelo dia e dormi até as cinco da tarde! Tento dispensado a dentista por conta da maldita, compremeti-me com ela de tirar as radiografias que ela pediu. Pensei comigo: amanhã acordo cedo e vou. Chega a noite e minha mãe telefona dizendo que morreu a Therezinha, esposa do Murilo, primo dela - e nosso - que é mesmo que irmão. Como diz o ditado: prá morrer, basta tá vivo! Então, nem dentista, nem radiografia. Por enquanto, a agenda mudou para velório no Cemitério do Bonfim e desde junho, é a quarta vez que vou lá. Se nada acontecer até lá... no momento, vivo o momento, o presente momento, o momento presente! E olhe lá!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Separação dos Quatro Apegos - Jamyang Khyentse Wangpo

Jamyang Khyentse Wangpo foot and hands prints
Através das bênçãos do nobre Guru Manjughosha,
Possam todos os seres através do universo praticar o Dharma sagrado,
Possam eles progredir ao longo do caminho, possam quaisquer confusões sobre o caminho ser pacificadas
E possam todas as suas percepções deludidas surgir como o espaço que tudo permeia!

Apesar de termos obtido este suporte raro, as liberdades e vantagens tão difíceis de encontrar, Se estivermos apegados a esta vida, nós não somos sinceros praticantes do Dharma,
E já que as coisas não duram mais que um momento e estão fadadas a ser destruídas,
Que nós nos esforcemos em praticar a virtude e em evitar o mal.

Apesar de nossas mentes poderem ser voltadas para o Dharma sagrado,
Se estivermos apegados aos três reinos do samsara, nós não possuímos a renúncia.
Então, que não desenvolvamos um desejo não-fabricado para escapar
Deste ciclo de existência que é, por sua natureza, sofrimento.

Apesar de podermos perseguir a mera paz e felicidade para nós mesmos,
Se estivermos apegados ao nosso próprio auto-interesse, nós não possuímos bodhichitta.
Então, já que todos os seres têm sido nossas bondosas mães e pais,
Que nós treinemos nossas mentes no amor, compaixão e bodhichitta.

Apesar de podermos ser bem treinados na bodhichitta relativa,
Se houver apego em nossa percepção, isto significa que não temos a visão.
Portanto, a fim de que possamos cortar completamente a visão do "eu”,
Que nós descansemos no espaço que tudo permeia, além das construções conceituais.

Através do mérito desta canção espontânea do que quer que tenha vindo à mente,
Reunindo e destilando o conselho dado pelo venerável Manjughosha
Ao glorioso e benevolente, o grande Künga Nyingpo,
Possam todos os seres sencientes, minhas mães passadas, rapidamente atingir o despertar!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Re-encarnação


"Uma consideração a se fazer é pensar que na outra vida eu fui um rei, nessa eu também sou e na outra também serei! Se tudo fosse permanente eu serei o que sou agora e sou o que fui ontem!
Mas há um instinto dentro de nós que diz que podemos ser melhores. Há uma citação de Atisha que diz que, se você quer saber o que você foi no passado, você deve olhar para você agora; se você quer saber o que será no futuro; olhe para você agora!
A impermanência mais grosseira é ver que somos seres humanos de uma vida para outra acontecendo. A impermanência sutil acontece a cada instante."
Jigmed Tromge Rinpoche