
Um Lama encarnado
Dessa forma, o líder espiritual vem cumprindo sua meta - não a de trazer adeptos ao budismo, mas a de tornar a terra um lugar mais fácil de viver. Rezar, para ele, não basta. O que o 14º Dalai Lama diz é que é preciso engajamento e determinação para qualquer transformação social e espiritual. “Antes de mais nada, temos que aprender como as emoções e comportamentos negativos nos são prejudiciais – para a sociedade e para o futuro também – e como as emoções positivas são benéficas”,diz ele.
Dalai Lama nasceu Lhamo Thondup em 1935 no vilarejo de Takster, próximo a fronteira da China com o Tibete. Seu pai, “um homem cuja extrema bondade convivia com um temperamento irascível”, era um camponês apaixonado por cavalos. Durante os meses de sua gestação, ele permaneceu gravemente enfermo até a manhã em que seu filho nasceu quando acordou sentindo perfeitamente curado. Foi também a partir desse nascimento auspicioso que um período de quatro anos de colheitas desastrosas em Takster chegou ao fim. Esses dois fatos são considerados sinais, segundo superstições tibetanas, de que haveria o renascimento de um graduado lama (um sacerdote budista) encarnado.
Sua descoberta não se deu por acaso. Depois da morte do13º Dalai Lama, em 1933, iniciaram-se as buscas pela sua reencarnação, algo comum na tradição budista. Em um lago sagrado próximo a Lhasa, um regente, indicado pela Assembléia Nacional para governar o Tibete até que a reencarnação atingisse a maturidade, teve visões que apontavam Takster. Uma missão foi enviada para o vilarejo, entre eles o Lama Kewtsang Rinpoche, do mosteiro de Sera, que chegou a casa de Lhamo Thondup disfarçado de criado. Ele foi prontamente reconhecido por Lhamo Thondup, então uma criança de 2 anos . “Sera – aga”,disse ele para o criado: “Você é um lama de Sera”. Lhamo também reconheceu o mala (rosário tibetano) que o criado disfarçado trazia no pescoço: “É meu”, disse, apontando para o mala que havia pertencido ao 13º Dalai Lama. É comum, segundo o budismo, crianças reencarnadas lembrarem de seus objetos e pessoas de suas vidas passadas, e esses foram só alguns dos sinais que fizeram Lhamo Thondup ser reconhecido como o 14º Dalai Lama. Aos 4 anos, foi transferido com a família para Lhasa. No palácio de Potala foi iniciado monge e assumiu o extenso nome de Jamphei Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso.
Segundo o budismo, o primeiro Dalai Lama nascido no ano 1391 da era cristã, era uma encarnação de Chenresi, o Buda da Compaixão. Cada Dalai Lama é uma reencarnação de seu antecessor e a ele cabe o governo espiritual e temporal do Tibete. Na forma atual de governo, chamada Gaden-Phodrang, Dalai Lamas se sucedem na liderança e, durante sua ausência ou menoridade, o Tibete é conduzido por regentes monges e leigos.
A partir daí, Tenzin Gyatso usaria roupas de monge, cabelo raspado, se comprometeria ao celibato e estaria proibido de comer a noite, entre outras restrições comuns a todos os monges – apesar de confessar que se dá o direito a alguns biscoitos depois do pôr-do-sol, quando a fome é grande. Sua educação incluiu lógica, arte e cultura tibetana, sânscrito, medicina e filosofia budista. Além das disciplinas curriculares, procurava conhecer mais sobre o mundo e foi daquelas crianças que adoram desmontar brinquedos, sempre um fascinado por objetos mecânicos. Ganhou um projetor de cinema a manivela e ao demonstrá-lo descobriu as baterias que alimentavam sua luz elétrica: “Foi meu primeiro contato com a eletricidade e sozinho descobri como fazê-lo funcionar novamente”.
Em 1950, a China comunista decidiu tomar do Tibete a independência obtida em 1912 para fazê-lo retornar aos domínios da República Popular da China. Tal fato fez com que fosse empossado Dalai Lama antes de sua maioridade, aos 16 anos. Seu primeiro ato foi declarar anistia a todos os presos. “Ser Dalai Lama é um cargo instituído pelos homens. Eu me considero apenas um simples monge.” Aos 24 anos, prestou com louvor os exames conclusivos de sua educação monástica – pouco antes de ser obrigado a se disfarçar de soldado chinês para fugir com duas mudas de roupas de monge na bagagem para a Índia, em 1959. Desde então, há 46 anos, o simples monge líder do povo tibetano vive exilado em Dharamsala, cidade ao norte da Índia.
“Cresci conhecendo muito pouco o que se passava no mundo, e foi nessas condições que, aos 16 aos, tive que liderar meu país contra a invasão da China comunista.” Educado sob disciplina rigorosa, Tenzi Gyatso afirma que “não foi uma infância infeliz”, e é grato à benevolência de seus professores, que lhe proporcionaram todo o conhecimento religioso e “fizeram o possível para satisfazer sua curiosidade saudável por outros assuntos”. Frente à China comunista, Dalai Lama optou pela não-violência e a propaga até hoje. “Os princípios de compaixão e não-violência do Dalai Lama dão forma à sua visão global”, explica o professor Victor Chan, que conviveu com Sua Santidade para escrever o livro A Sabedoria do Perdão.
Em decorrência de a China ter invadido o Tibete com 80 mil homens – contra os 8500 do exército local -, aproximadamente 1,2 milhão de tibetanos (de uma população de 6 milhões) morreram e 6400 mosteiros (99,9% do total) foram destruídos. Mesmo assim, o Dalai Lama não gosta de propagar a violência infligida pelos chineses. Considera os inimigos professores valiosos que podem provocar o desafio necessário para cultivar qualidades como compaixão e perdão. “Sou otimista. A China está mudando. E o que eu peço não é a separação da China, mas uma aproximação pelo caminho do meio: manter o vínculo econômico com a República Popular da China, ao mesmo tempo em que o Tibete possua autonomia completa e governo próprio.”
Seu reconhecimento veio com o Prêmio Nobel da Paz, em 1989, promovendo uma tomada de conhecimento mundial para a causa do Tibete. O comitê justificou o prêmio citando sua defesa de “situações pacíficas baseadas na tolerância e respeito mútuo a fim de preservar a herança histórica e cultural de seu povo”.
A serviço da compaixão
Uma gargalhada gostosa é sua marca registrada. E o espírito brincalhão é uma característica que o Dalai Lama justifica ser proveniente do jeito de ser do povo tibetano. Ao longo do último meio século, não há um dia sequer em que ele deixe de meditar sobre a compaixão. “Descobri que o mais alto grau de paz interior decorre da prática do amor e da compaixão. Quanto mais nos importamos com a felicidade de nossos semelhantes, maior o nosso próprio bem-estar. Essa é a principal fonte da felicidade”. Ele acredita ser o primeiro beneficiado ao lutar pela felicidade dos outros.
Quando não está viajando, seu dia começa às 3h30. Meditações e preces são feitas até o horário do almoço. A cozinha em Dharamsala é vegetariana, mas o Dalai Lama nem sempre segue a dieta. A parte da tarde é reservada para audiências e entrevistas. Um chá é servido às 18h, com direito a alguns biscoitos. Até as 20h30, quando se recolhe para dormir, faz suas orações da noite. Essa é a rotina que fornece a base para seus três compromissos em vida.
Primeiro, ele se dedica a promover valores como compaixão, perdão, tolerância, contentamento e auto-disciplina para todos os seres. Para ele, esses são os valores de uma ética para o novo milênio. Depois, sua preocupação é com a integridade de todas as maiores tradições religiosas, acreditando que, apesar das diferenças, todas elas tem potencial para promover o bem-estar dos seres humanos. Esse, aliás, é um dos temas de sua visita ao Brasil, em palestra gratuita a se realizar na Catedral da Sé. Por fim, seu terceiro compromisso, com o povo tibetano, é o único que poderá acabar, caso uma solução mutuamente boa para o Tibete e a China seja alcançada. E tudo isso sempre com seu indefectível sorriso estampado no rosto.

























