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segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mulláh Nasrudin


Aprendizado
"Como foi que você aprendeu tanto, Mullá ?", perguntaram certa vez a Nasrudin.
"Falando muito", respondeu ele.
"Vou colocando em sequência todas as palavras que me ocorram. Quando eu fico interessante, posso ver o respeito no rosto das outras pessoas. Na hora em que isso acontece, começo a tomar nota mentalmente do que disse".
O tolo que era sábio
Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor.
A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:
- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros. Nasrudin lhe respondeu:
- O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas.
O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. E acrescentou:
- "Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente".

Caiu alguma coisa...
Ao ouvir um forte estrondo, a mulher de Nasrudin saiu correndo até o quarto.
"Não precisa se preocupar", disse o Mulláh, "foi apenas meu manto que caiu no chão".
"O quê? E fez um barulho desses?"
"Sim, é que na hora eu estava dentro dele".

Mentira e Verdade
Em dada ocasião, um rei chamou Nasrudin para se consolar:
- Ah, Mulláh, estou triste. Meu povo anda mentindo demais, não sei mais o que fazer. O que posso fazer quando o povo me falta com a verdade.
- Acontece, rei - respondeu Nasrudin - que nem sempre é fácil diferenciar a verdade da mentira.
- Mas é claro que é, Mulláh - retrucou o rei - a verdade impele ao bem, enquanto a mentira só visa enganar...
- Essa é a teoria, mas é preciso que todos saibam na prática o que é mentira e o que é verdade...
Assim Nasrudin combinou com o rei e com o carrasco da corte que na manhã seguinte todos os cidadãos iriam ser levados para fora dos muros da cidade e antes de entrarem o carrasco deveria perguntar o que queriam fazer na cidade, os que mentissem, seriam enforcados em praça pública.
E assim foi. Na manhã seguinte estavam todos os cidadãos em frente ao portal da cidade e o capataz falou:
- Todos os que desejam entrar na cidade devem me dizer o motivo, aqueles que mentirem serão enforcados.
- Eu serei o primeiro - disse Nasrudin, e se encaminhou na direção do carrasco.- Por que quer entrar na cidade? - perguntou.
- Eu estou indo ser enforcado naquela forca - e apontou para a praça.- Isso é uma mentira, Mulláh!!! - disse o carrasco.
- Se estou mentindo, então me enforque, oras!

Casa de Banhos
Em dada ocasião, Nasrudin chegou em uma casa de banhos, mas como estava com uma roupa velha e a barba cheia de falhas, o atendente o tomou como um vagabundo qualquer. Por isso, tudo que forneceu ao Mulláh, foi uma tina de água fria e uma toalha velha.
Antes de ir embora, Nasrudin se dirigiu ao atendente afim de pagá-lo. O Mulláh pagou com uma grande e brilhante moeda de ouro, que fez com que o queixo do homem caísse.
Dali uma semana Nasrudin voltou a casa de banhos, e embora ainda usasse andrajos, o atendente o recepcionou incrivelmente bem e lhe ofereceu seus melhores serviços. Antes de ir embora, o Mulláh foi pagar o homem, mas desta vez lhe deu uma diminuta e opaca moeda de cobre:
-Mas o que é isso? - perguntou o atendente.
-Essa moeda de cobre é pelo atendimento da semana passada, e aquela moeda de ouro foi pelo atendimento de hoje.

Iogurte
Como se sabe, uma pequena porção de iogurte, quando misturada no leite, pode fermentar este último e torná-lo também iogurte. Acontece que em dada ocasião, Nasrudin estava a beira de um lago misturando iogurte no lago, quando um amigo passava:
-Nasrudin, o que está fazendo?
-Estou misturando iogurte no lago, assim teremos um lago de iogurte.
-Mas isso não funciona, Nasrudin.
-Sei que não funciona, mas já pensou se isso dá certo?

O Barco e o Homem Letrado
Em dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mulláh disse algo que contrariava as regras gramaticais:
-Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.
-Não, nunca - respondeu Nasrudin.
-Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.
Nasrudin ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
-Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mulláh ao homem letrado.
-Não, nunca - este respondeu.
-Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.

Entre os Amigos e o Burro
Nasrudin ia montado em seu burro pelo povoado, pensando no que pensar, quando de repente uns amigos lhe chamaram.
O mestre, ao escutar o chamado, desce do burro e vai ter com eles.
Quando chega, estes começam a recriminá-lo pelo que havia feito, ou não havia feito.
Nasrudin, nesse momento, volta até seu burro e com um sorriso lhe diz:- Que sorte que não falas!

Não há estoque...
Um homem foi até a loja de comestíveis de Nasrudin e lhe perguntou qual era o preço das nozes.- Duas peças de ouro por quilo - respondeu Nasrudin.
- Esse é um preço escandaloso! - queixou-se o cliente.
-Você não tem nenhuma sombra de consciência?
- Sinto muito. - replicou o Mulláh - mas não tenho este artigo em estoque.

A Lua no Poço
Numa noite clara e enluarada, Nasrudim vai ao poço tirar água. Ao olhar para baixo, vê o reflexo da lua brilhando na água e na mesma hora diz:
- Nossa, coitada da lua, ela caiu dentro da água! Espere lua, que eu já vou tirá-la daí!
Nasrudim vai correndo até a sua casa e volta com uma corda com um gancho de ferro amarrado na ponta. Rápidamente atira a corda dentro do poço, gritando de forma encorajadora:
- Vamos lua, força, agarre firme que eu já puxá-la para fora daí!
Mas aconteceu que a corda ficou presa numa grande pedra no fundo do poço e Narudim precisou puxar com toda a sua força.
“Ufa!” – pensou Nasrudim com os seus botôes. “Mas como a lua é pesada!”
De repente, a corda se solta num tranco e Nasrudim cai de costas no chão.
Quando consegue recuperar o fôlego, ainda estendido no chão, ele se depara com a lua no céu, brilhando no meio das estrelas.
Então Nasrudim diz à lua:
- Não foi nada fácil, mas conseguimos, heim lua! Que sorte a sua eu ter chegado bem a tempo de poder ajudá-la! Foi um prazer estar a seu serviço. Adeus lua, e boa noite!

Quando a Sinceridade Fala Primeiro
Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:
- Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?
- O dinheiro, é claro - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.
- O quê! - disse o juiz. Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!
- Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! - respondeu tranqüilamente o mestre Nasrudin.

Mude-se Para Outro Lugar
Por algum motivo que agora já caiu no esquecimento, o povo de Aksehir zangou-se muito com Hodja, e quis expulsá-lo da cidade. Queixaram-se dele ao Juiz e este viu-se obrigado a intimar Nasrudin e dizer-lhe:
- Hodja, o povo da cidade não te quer. Todos desejam que te mudes para outro lugar.
- Eu é que não gosto do povo daqui - respondeu Nasrudin. - No que me diz respeito, podem todos ir embora da cidade!
- Mas eles são muitos, e tu és só um! - disse o Juiz.
- Então, já que são muitos, é ainda mais fácil para eles. Podem trabalhar juntos e construir uma cidade onde quer que desejem. Mas como é que eu posso, na minha idade, construir uma casa nova e cultivar um jardim no meio do campo?

As Chaves Perdidas
O Mulláh perdeu suas chaves e foi à praça buscá-las quando um vizinho lhe disse: - Mulláh , que estás fazendo? Respondeu: - Busco minhas chaves. - Onde as perdeste? - Em minha casa. - Por que buscas aqui? - É porque aqui tem mais luz!

A luta dos cegos
Certa manhã, quando dirigia-se ao mercado, Nasrudin viu alguns cegos e, fazendo tilintar as moedas em sua bolsa, disse em voz alta:
- Amigos, amigos, peguem estas moedas. Tu, toma esta, tu, esta, e vocês repartam o resto - e enquanto fazia isso, fazia tilintar as moedas em sua bolsa.
É evidente e seria até demais esclarecer, que não repartiu um só tostão.
Produzida a cena, afastou-se para observar a seguinte situação: Os cegos começaram a precipitar-se uns sobre os outros, exclamando e gritando: " deu tudo para ti". Ou então:" Vocês ficaram com tudo ao invés de repartir". Ou:" Eu nada recebi", " mentes", " dá-me a minha parte", etc. etc.
Isso transformou-se em empurrões, socos, chutes, insultos, xingamentos,terminando em uma grande batalha indescritível, dada a cegueira totalreinante.
Nasrudin, que seguia de perto as peripécias da batalha, murmurou:- Isto é o que poderia chamar-se de uma " uma luta de cegos por motivo inexistente".

Pertinência
Um dos espetáculos mais impressionantes que já vi, foi aquele de uma multidão que se aglomerava em volta de uma sepultura de um santo com tanta emoção que eu fui tomado como que por uma força material. Ora, vós dizeis que os sufis desaprovam esse gênero de manifestação. Como podeis negar a importância de um fenômeno desta ordem? Resposta: Talvez você não conheça esta história de Mulláh Nasrudin que pode ser considerada como uma analogia de vossa experiência e vossa pergunta.
Nasrudin levava um amigo no carro. Ele dirigia em alta velocidade. De repente, ao ver um indicador de estrada, o amigo gritou:— Nasrudin, nós estamos indo na direção errada!...
— Por que você não pensa nunca em coisas agradáveis? Ó..., por exemplo, olhe só a que velocidade estamos andando!

Os melhores conselhos
Nasrudin começou a construir uma casa : seus amigos, que tinham cada um sua própria casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos. Mulláh estava radiante. Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer. Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava.
Quando a construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.
- Que curioso! - disse Nasrudin - e, contudo eu fiz exatamente aquilo que cada um de vocês me tinha dito para fazer!

A lua é mais útil que o sol
Nasrudin entrou na casa de chá proclamando: - A lua é mais útil que o sol. - "Por que ,mullá"? - "Precisamos de mais luz durante a noite que durante o dia".
"Se sobrevivo a esta vida sem morrer, estarei surpreso!!!"
O equilíbrio do mundo
Um dia perguntaram a Nasrudin.
- Mestre, ao amanhecer o dia, cada um vai para o seu lado: uns por aqui, outros por ali, por que será?
- Se todos fossem para a mesma direção - responde Nasrudin - o mundo se desequilibraria e cairia!

Descida
- Nasrudin, como caíste do burro?
- Não estive mal. Eu ia descer, de qualquer maneira.

sábado, 11 de abril de 2009

Além da Mente, Além do Cérebro - Yongey Mingyur Rinpoche


Quando a mente é percebida, isso é o Buda?

The Wisdom of the Passing Moment Sutra (Sutra da Sabedoria do Momento Presente)
traduzido para o inglês por Elizabeth M. Callahan

Você não é a pessoa limitada e ansiosa que pensa ser. Qualquer professor budista treinado pode dizer com toda a convicção da experiência pessoal que, na verdade, você é o centro da compaixão, completamente consciente e plenamente capaz de atingir o bem maior, não apenas para si mesmo, mas para todos e tudo o que possa imaginar.

O problema é que você não reconhece essa capacidade em si mesmo. Em termos estritamente científicos passei a compreender pelas conversas com especialistas da Europa e da América do Norte, que a maioria das pessoas acredita que a imagem de si mesmas formada pelo hábito e neuronalmente construída representa quem e o que elas são. E essa imagem é quase sempre expressa em termos dualistas: o eu e o outro, dor e prazer, ter e não ter, atração e repulsa. Como me foi explicado, esses são os termos mais básicos da sobrevivência.

Infelizmente, quando a mente é submetida ao filtro dessa perspectiva dualista, cada experiência, mesmo em momentos de alegria e felicidade, é restrita por algum senso de limitação. Há sempre um mas espreitando ao fundo. Um tipo de mas é o mas da diferença. "Ah, minha festa de aniversário estava maravilhosa, mas eu preferiria um bolo de chocolate a um de coco." Há também o mas do "melhor": "Adoro a minha nova casa, mas a casa do meu amigo é maior e mais bem iluminada". E, finalmente há o mas do medo: "Não suporto mais o meu trabalho, mas na situação atual do mercado, como encontraria um novo emprego?"

A experiência pessoal me ensinou que é possível superar qualquer senso de limitação pessoal. Caso contrário, eu provavelmente ainda estaria sentado em meu quarto no retiro, sentindo-me amedrontado e inadequado demais para participar das atividades em grupo. Como um menino de 13 anos eu só sabia como superar meu medo e insegurança. Por meio da orientação paciente de especialistas na área da psicologia e neurociência, como Francisco Varela, Richard Davidson, Don Goleman e Tara Bennett-Goleman, comecei a reconhecer por que, de um ponto de vista objetivamente cientifico, as práticas de fato funcionam: que os sentimento de limitação, ansiedade, medo e assim por diante são somente parte de uma fofoca neuronal. Eles são, em essência, hábitos. E hábitos podem ser mudados.

Retirado do livro: "A Alegria de viver" de Yongey Mingyur Rinpoche

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Os Quatro Animais - Ativando nossas forças interiores.

Não é propaganda. Não ganho nada com isso. Só acho que alguém pode se interessar. Eu me interesso!
No budismo há os animais que representam algumas de nossas forças interiores:

O Cavalo do Vento - representa nosso poder pessoal, nossa capacidade de realização;

O Tigre - representa nossa determinação, nossa confiança e bondade;

O Dragão - representa nosso magnetismo pessoal, nossa boa reputação;

O Leão da Neve - representa nosso charme, beleza e clareza mental.

Quando estas forças interiores são fortalecidas e ativadas, nos tornamos mais capazes de lidar de forma benéfica com qualquer situação, seja ela boa ou ruim. Podemos ser mais capazes de transformar obstáculos em oportunidades de crescimento e aprendizado, assim como desfrutar mais dos momentos de paz e alegria. Estes adesivos são uma reprodução fiel de pinturas feitas à mão por um artista do Butão, para que possam ser carregados no dia-a-dia, como uma forma de nos remetermos a estas forças que possuímos, porém, que por vezes, encontram-se enfraquecidas. Pode ser afixado em carros, geladeiras, computadores, portas, paredes, etc.

Símbolos Auspiciosos da Boa Fortuna


Os Oito Símbolos Auspiciosos da Boa Fortuna foram oferecidos ao Buda Shakiamuni quando ele atingiu a iluminação. No Budismo acredita-se que, ao erguermos ou oferecermos os Oito Símbolos Auspiciosos, criaremos uma boa conexão com as pessoas, com o ambiente ao nosso redor e com o que quisermos realizar. Podemos erguer ou oferecer os símbolos separadamente, um por um, em pares de dois, em quatro ou, o ideal, o conjunto dos oito.

Pára-Sol - Proteção
O pára-sol é um símbolo tradicional de proteção e realeza. Protege dos raios e calor do sol. O frescor de sua sombra simboliza a proteção do calor do sofrimento, desejo com egoísmo, obstáculos, doenças e energias negativas.

Peixes - Felicidade
No budismo os peixes simbolizam felicidade, pois eles nadam livremente na água. Também representam fertilidade e abundância uma vez que eles se multiplicam rapidamente. O par de peixes simboliza união conjugal e fidelidade. É auspicioso oferecermos ou recebermos o casal de de peixes como presente de casamento.

Vaso Dourado - Riqueza e Harmonia
Como um vaso divino de tesouros infinitos, o vaso dourado possui a qualidade de manifestar espontâneamente riqueza e atrair harmonia para o ambiente.

A Flor de Lótus - Pureza e Divindade
O lótus floresce imaculado em meio aos pântanos e simboliza a pureza, renúncia e divindade.

Concha Branca - Poder
A concha branca com a espiral para a direita representa poder, autoridade e soberania. Acredita-se que o som produzido ao soprarmos esta concha espanta energias negativas, atrai proteção contra desastres naturais, amedronta seres e criaturas venenosas.

Nó Infinito - Interdependência
O nó infinito é entrelaçado sem um início ou fim e simboliza a sabedoria e compaixão infinitas dos Budas que não é diferente da nossa própria natureza.

A Bandeira da Vitória - Vitória sobre o Mal
A bandeira da vitória foi adotada no budismo como um emblema da iluminação de Buda Shakiamuni e sua vitória sobre todo o mal que nos impede de acessar nossa verdadeira natureza iluminada.

A Roda - Transformação
No budismo a roda simboliza os ensinamentos de Buda. Seu movimento giratório representa a rápida transformação espiritual revelada nestes ensinamentos. Como uma ferramenta de mudanças representa a vitória sobre os obstáculos e ilusões.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

"O Que Faz Você Ser Budista" - Exertos - Dzongsar Jamyang Khyentse


“(...) uma pessoa que não seja budista pode perguntar casualmente: ‘O que faz de alguém um budista?’ Essa é a pergunta mais difícil de responder. Se a pessoa tem um interesse genuíno, a resposta completa não serviria de assunto para uma conversa ligeira à mesa e generalizações podem levar a mal-entendidos. Suponhamos que você dê a resposta verdadeira, a resposta que aponta para a base fundamental dessa tradição de 2.500 anos.

A pessoa é budista se aceitar as quatro verdades a seguir;

Todas as coisas compostas são impermanentes.
Todas as emoções são dor.
Todas as coisas são desprovidas de existência intrínseca.
O nirvana está além dos conceitos.

Essas quatro afirmações, ditas pelo próprio Buda, são conhecidas como ‘os quatro selos’. De modo geral, selo significa uma marca que confirma a autenticidade. Por uma questão de simplicidade e fluência, vou aqui me referir a essas afirmações tanto como selos quanto como ‘verdades’ – sem as confundir com as quatro nobres verdades do budismo que tratam unicamente dos aspectos do sofrimento. Embora se acredite que os quatro selos abarquem a totalidade do budismo, a impressão que se tem é que as pessoas não querem ouvir falar sobre eles.

(...) a mensagem dos quatro selos deve ser entendida literalmente – não em sentido metafórico ou místico – e ser levada a sério. Os selos não são dogmas ou mandamentos. Com um pouco de contemplação, vemos que eles nada têm de moralismo ou ritualismo. Não se fala de boa ou má conduta. Eles são verdades leigas fundadas na sabedoria e a sabedoria é o que mais interessa a um budista. A moral e a ética ficam em segundo plano.

(...) a sabedoria provém de uma mente que possui o que os budistas chamam de ‘visão correta’. No entanto, a pessoa nem sequer precisa se considerar budista para ter a visão correta. (...) Então, o que faz de você um budista?

Se você não consegue aceitar que todas as coisas compostas ou fabricadas são impermanentes, se acredita que há alguma substância ou conceito essencial que seja permanente, então você não é um budista.

Se você não consegue aceitar que todas as emoções são dor, se acredita que, na verdade, algumas emoções são puramente prazerosas, então você não é um budista.

Se você não consegue aceitar que todos os fenômenos são ilusórios e vazios, se acredita que certas coisas, de fato, têm existência intrínseca, então você não um budista.

E, se você pensa que a iluminação existe dentro das dimensões do tempo, espaço e poder, então você não é um budista.

Os quatro selos são como o chá, ao passo que todos os demais meios utilizados para implementar essas verdades – práticas, rituais e roupagem cultural – são como a xícara. Instrumentos e métodos são observáveis e tangíveis, mas a verdade não. O desafio está em não se deixar levar pela xícara. As pessoas estão mais dispostas a sentarem eretas sobre uma almofada de meditação em um lugar quieto do que em contemplar o que chegará primeiro, o dia de amanhã ou a próxima vida.

Ao longo dos séculos, diversos tipos e estilos de xícaras foram produzidos; entretanto, por melhor que seja a intenção por trás delas e por melhor que funcionassem, as xícaras passam a ser um empecilho se esquecermos o chá. Embora sua finalidade seja conter a verdade, tendemos a nos focar no meio e não no resultado. Por isso, pessoas andam por aí com xícaras vazias ou esquecem de tomar o chá. Nós, seres humanos, podemos ficar encantados ou pelo menos distraídos com as cerimônias e cores das práticas criadas pelas culturas budistas. Incensos e velas são exóticos e atraentes; já a impermanência e a inexistência do eu, não. O próprio Sidarta afirmou que a melhor forma de culto é a simples lembrança do princípio da impermanência, do sofrimento ligado às emoções, da ausência de existência intrínseca dos fenômenos e do fato de que o nirvana transcende os conceitos.

(...) Em última análise, os guardiões do budismo não são os mestres graduados, mas sim, as quatro verdades.

(...) Como budista, você deveria se ater à seguinte regra: um budista nunca incita nem participa de derramamento de sangue em nome do budismo. A ele não é permitido matar sequer um inseto, quanto mais um ser humano. E, se por acaso, você tomar conhecimento que alguma pessoa ou grupo budista esteja fazendo isso, como budista você tem o dever de protestar e condenar esses atos. Se você se calar, não estará apenas deixando de desencorajar essas pessoas; você basicamente será uma delas. Você não é um budista.”

Páginas 11, 12, 13, 161, 162, 168.
Obs: *Intrínseco: que está dentro de uma coisa ou pessoa e lhe é próprio; interior; íntimo; que está inseparavelmente a uma pessoa ou coisa; inerente; peculiar.

*Extrínseco: que é exterior; não pertencente à essência de uma coisa.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Todo aquele que nasce é impermanente e fadado a morrer.

http://www.youtube.com/watch?v=ri-XCOf6ZlQ

Aceitação e entrega


"Sempre que puder, olhe para dentro de si mesmo e procure ver se você está inconscientemente criando um conflito entre as circunstâncias externas de um determinado momento - onde você está, com quem está ou o que está fazendo - e os seus pensamentos e sentimentos. Você consegue sentir como é doloroso ficar se opondo internamente ao que é?

Quando reconhece esse conflito, você percebe que agora está livre para abrir mão dessa guerra interna inútil."

"O Poder do Silêncio" - Eckhart Tolle

Sem celular na ilha do Lost

Quanto ao ficar sem celular, uma pessoa replicou:
- E se você estiver perdida numa ilha do Lost?
Respondi:- Pâhhh!
Refleti:- Acho que já estive lá quando era pequena. Nos anos 50 não tinha celular, televisão, computador, microondas e outras coisas. Mas também não tinha ladrão, drogas, assaltante na rua, barulho de obra e o vizinho não tinha som. Se tinha era vitrola e não dava prá tocar alto porque não tinha woofer, tweeter, surround nem nada. Era aquele sonzinho arranhado de vinil grosso e pesado. E as pessoas tinham uma coisa chamada respeito, coisa rara hoje em dia.
Em compensação, a gente brincava na rua na maior tranquilidade.
Se quisessem me achar, eu estava em casa ou na escola para onde ia sozinha, desde os quatro anos de idade, com meu irmão de seis e minha prima de cinco! Sem problema!

Sem celular

"Ficar sem celular é como flutuar num mar de nuvens azuis. Não importa onde você esteja, ninguém poderá te achar. Delícia."
Marina W.

domingo, 5 de abril de 2009

Se sentir raiva, recue!

Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche e Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche

"Se sentir raiva, recue! Se for capaz de agir sem raiva, talvez você transponha a terrível delusão que perpetua a guerra e seu sofrimento infernal."
“É necessário uma paciência extraordinária para trabalhar pela paz mundial, e a fonte desta paciência é a paz interior. Tal paz nos permite ver claramente que a guerra e o sofrimento são reflexos externos dos venenos da mente.”

Chagdud Tulku Rinpoche

O Que Faz Você ser Budista - Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche

"Um Deus onipresente e permanente não poderia mudar; então, é melhor ter um Deus impermanente que possa responder a preces e modificar as condições meteorológicas. Contudo, desde que as ações de Deus constituam uma reunião de começos e fins, ele será impermanente; em outras palavras, sujeito a incertezas e não confiável." (pág. 31)
A partir de um ponto, mesmo se rezarmos para que o ovo não cozinhe, ele vai cozinhar." (pág. 39)

sábado, 4 de abril de 2009

Dza Patrül Rinpoche, Orgyen Jigme Chökyi Wangpo - Prece de Aspiração


Ó Três Jóias, fontes infalíveis de refúgio,
E hostes de lamas-raiz de incomparável compaixão inata,
Eu rogo a vocês, de meu coração! Dêem-me suas bênçãos,
Sempre me sustentem com sua compaixão e não se esqueçam de mim.
Quando eu tomar o amor e a compaixão como sendo o fundamento do caminho
E me esforçar com diligência nos estágios de geração e perfeição,
E com a compreensão de que o respeito e a devoção são a sua raiz,
Ó Três Jóias e lamas, sempre olhem para mim com sua compaixão.
Quando eu me esforçar na prática dos três vajras,
Tomando os três tipos de isolamento como fundamento de minha prática de yoga,
Possam todas as circunstâncias desfavoráveis ser pacificadas,
Possam todas as circunstâncias favoráveis tornar-se abundantes
E possam florescer as qualidades positivas de minha experiência meditativa e realização.
Possa eu treinar no caminho que deleita os vitoriosos,
Confiando na profunda visão — a realização do caminho do permanecer —,
Na profunda meditação — a abundância da experiência meditativa —
E na nobre conduta — as seis perfeições.
Possam florescer os nobres feitos dos lamas oniscientes, mestres do Dharma e seus herdeiros,
Possa aumentar toda a virtude e excelência,
E possam os preciosos ensinamentos da teoria e da prática
Aumentar tanto quanto a lua crescente.

Por Patrül. Que tudo seja auspicioso!

A Promessa Que Não É Cumprida


"A prática tem de ser um processo de intermináveis decepções. Temos de enxergar que tudo o que exigimos (e até obtemos) irá depois nos decepcionar. Essa descoberta é nossa mestra. É por isso que devemos tomar cuidado com amigos que estão em dificuldades, para os quais não devemos demonstrar nossa simpatia acenando-lhes com falsas esperanças e promessas de tranqüilidade. Essa espécie de simpatia - que não é a verdadeira compaixão - simplesmente retarda mais seu aprendizado. Em certo sentido, a melhor ajuda que podemos oferecer a alguém é apressar seu desapontamento. Embora isso pareça cruel, não o é na verdade. Ajudamos aos outros e a nós mesmos quando começamos a enxergar que todas as nossas exigências habituais são mal direcionadas".

Extraído do livro "Nada Especial" de Charlotte Joko Beck - Responsável pelo Centro Zen de San Diego, California, USA.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Súplica para Tara Sete Protetores por Jigten Gonpo


Uma Oração para " Tara os Sete Protetores "
por Jigten Gonpo


No Reino do Dharmadhatu
Por nascer
Mora a Sagrada Mãe Tara
Ela que dá felicidade a todos os seres sensíveis

Eu rezo a você, nos proteja de todos os tipos de medos!
Não percebendo a si mesmo como Dharmakaya
As mentes dos seres sensíveis são possessas de emoções negativas
A estes, a mãe dos seres sensíveis que vagam em Samsara

Oh Mãe Santificada, por favor nos proteja!
Não tendo entendido o profundo Dharma por dentro
E tendo seguido o nível convencional das palavras
Seres são enganados por visões filosóficas erradas e dogmas

Oh Mãe Santificada, por favor nos proteja!
Difícil de perceber é a própria mente.
Alguns percebem isto mas não praticam perfeitamente depois
Para os que estão perdidos em atividades mundanas insalubres

Oh Mãe Santificada, Incorporação da Plena Atenção Perfeita, por favor nos proteja!
A Realidade Absoluta da Mente é a sabedoria Buddhica Não-dual Inata
Mas por causa da habitual concepção dualística
A pessoa é aprisionada nisto em tudo o que faz

Oh Mãe Perfeita de Sabedoria Não-dual, por favor nos proteja!
Apegados à concepção de Vacuidade alguns pensam que entendem a Realidade Absoluta
Mas não entendem a interdependência de Causa e Efeito da Realidade Fenomenal
São seres iludidos com relação à Realidade dos Fenômenos

Oh Mãe Onisciente, por favor nos proteja!
Como a natureza do espaço que está além de todas as concepções
A Realidade de todos condicionados fenômenos não é diferente disso
Mas isso não foi percebido, então
Oh Mãe Perfeitamente Iluminada, por favor nos proteja, os novatos no Caminho!
o0o
Uma vez, quando o Senhor Jigten Gonpo estava na Caverna de Echung em Drikung, depois de ter atingido a Iluminação, teve uma visão das Sete Taras. Naquele momento, ele compôs esta oração de súplica pelos sete versos. Esta oração tem bênçãos múltiplas e é uma oração de súplica extensamente usada para as sete proteções.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Reconhecer o mal em nós - Jeffrey Hopkins


Assim como os Budas perfeitos sabem
As maldades que tenho cometido,
Eu as revelo.
Daqui em diante não mais farei isso.

O significado da última estrofe é que, não sendo onisciente, uma pessoa não conhece todas as maldades que já cometeu ao longo de um ciclo sem início de vidas. Então, ela faz uma confissão geral de todos os maus atos que os seres oniscientes sabem que ela cometeu.

Implicitamente, a mensagem importante comunicada aí é que é impossível esconder os atos negativos.Já que a negação é uma das defesas mais nocivas contra as forças interiores, a noção budista geral de que ao longo de muitas vidas cometemos todo tipo de maldade -- e temos, em nossos fluxos mentais, forças nos predispondo a isso novamente -- fornece uma perspectiva saudável.

Certamente, não evita a negação em todos os níveis (já que as profundezas de nossa própria depravação não são fáceis de reconhecer), mas abre caminho para o reconhecimento consciente do que jaz abaixo da superfície.

Revelar, confessar todas essas maldades é afirmar sua presença, enfraquecendo assim a força da negação e fortalecendo o ego como o árbitro, em vez de a vítima, dessas forças.

Jeffrey Hopkins - "Tantric Techniques"Snow Lion

terça-feira, 31 de março de 2009

Viver o momento


Isso para mim é página virada. Julgo ser um fato consumado e não quero mais me aprofundar nessa história. Tenho quase cinquenta e oito anos e meu primeiro surto foi aos vinte e três. Digo surto porque surtei, porque acredito que sofro disso desde o princípio sem princípio. Está na minha Alaya. Hoje tomo dois remédios e mais um para o hipotireoidismo que ganhei de presente ano passado! Os remédios são manipulados em uma dosagem pequena, só de manutenção. Devo dizer que sinto-me no direito de resposta pelo fato de uma pessoa que nem me conhece dizer que minha "excessiva sensibilidade não tem nada a ver com síndrome de pânico". O pânico foi comprovado sim através de exames (que só hoje existem no Brasil) por um psiquiatra que, na época, dava aulas na Sorbonne! É um problema neuroquímico assim como a falta de hormônios numa menopausa. Não. Não quero falar sobre tormentos nem detalhes anormais pois não tive nenhum! Muito menos memorizei-os e, sendo assim, não há o que esquecer! Vivo o momento como aprendi no budismo com meu saudoso Chagdud Rinpoche e seus lamas pois posso morrer no próximo décimo de segundo. Não se trata de cura, mas de medicação. Tenho muita energia e muita força, porque no meio de tudo isso e antes de qualquer tratamento, me casei, tive três filhos adoráveis, trabalhei fora e dentro e continuo casada (trinta e três anos) com o mesmo homem, coisa raríssima hoje em dia. Hoje, eu e minhas irmãs estamos cuidando de nossa mãe (oitenta e um) recem operada da coluna e cada uma tem suas limitações: uma não pode com sangue, outra não pode com fezes e eu não posso com cozinha. Creio que por aí, dá prá notar que eu estou em vantagem. Deixar de cozinhar não é uma coisa tão terrível assim e sempre se pode comprar comida pronta ou arranjar quem a faça. Além do que falei até agora, não tenho nada para contar, mas se você quiser contar a sua experiência, sinta-se livre para isso. Sempre digo que e-mail deveria ter tom de voz assim como televisão deveria ter cheiro. Meu tom de voz, apesar do que escrevi, não tem nada de irritado ou melindroso. Só que são coisas que ficaram lá para trás e que hoje só compartilho com meu médico. Trinta e cinco anos pode ser uma vida inteira! Me desculpe se passei a sensação de indelicadeza, mas não fui indelicada. Só verdadeira e sincera. Escrevo com firmeza, mas sorrindo para você.
No dharma, Pema Lodrön.

O Foco no Dharma


Na verdade, o ponto focal da prática do dharma não tem nada a ver com entoar mais mantras ou gastar mais horas sentado meditando. Tem muito mais a ver com coisas simples do cotidiano. Quando você caminha e conversa com as pessoas, quando você senta perto de seus amigos, ou inimigos - duvido que tenhamos algum inimigo explícito, mas me refiro às pessoas com as quais você não se dá bem, difíceis de lidar, ou que te chateiem - você deve estar com eles. Como Atisha Dipamkara*, que - com muito esforço -trouxe um indiano com ele para o Tibet. Esse homem não tinha nenhuma outra função além de perturbá-lo. Esse foi o único objetivo de trazê-lo.
Dzongsar Khyentse Rinpoche (1961 -)
Longtchen Nyingtik Practice Manual: advice How to Practice"
*Atisha Dipamkara: mestre indiano que, no século X, foi fundamental para a segunda grande difusão do budismo no Tibet.

sábado, 28 de março de 2009

Gracias a la vida


Não sabia que meu corpo, fala e mente ilusórios suportariam a agonia de esperar minha mãe ser operada, cirurgia marcada para as onze da manhã e protelada para um horário desconhecido, a nervosia e a irritabilidade dos irmãos, o medo, a imprevisibilidade, a impotência, tudo junto. Um pesadelo que dele se acorda quando termina tudo bem. Relativamente.
Só o que queria era ficar perto, olhar nos olhos dela. Minha irmã se cansou – dá trabalho! – e me pediu isso. Tudo o que eu queria. Arrumei uma sacola com o mínimo possível para passar um dia, uma noite e uma manhã com minha mãe no hospital. Não me importava o que poderia encontrar lá, o que me esperava. Simplesmente fui com o coração aberto, os braços e as mãos também.
Quando cheguei, ela já me presenteou com um sorriso, triste, mas um sorriso. Não queria comer, bebia pouco líquido. Brinquei falando que agora havia chegado a hora da minha vingança, pois, quando pequena, eu não comia e ficava de castigo, ganhava leves palmadas e beliscões que ela não era de violência, apesar de autoritária.
Não me importei. Dei comida na boca, penteei seus cabelos, ajudei a escovar os dentes, ofereci a comadre, lavei tudo o que era necessário, fiz tudo que ela me pedia. Até assisti Big Brother!
Quando dormia ou cochilava, balbuciava muito, falava coisas sem nexo e a única frase que entendi foi quando ela disse, mesmo embriagada, que eu estava lá.
Os médicos disseram que era efeito da anestesia e do remédio para dor à base de morfina que causavam confusão mental.
Uma hora me assustei. Ela acordada, de olhos abertos e olhando para mim disse que eu tinha que ir ao quarto de empregada buscar um sapato que estava lá e que era para lavar. Eu disse que nós estávamos no hospital, mas ela repetia com vigor a mesma ordem. Concordei e ela dormiu de novo mais um pouco.
À noite, perguntei-lhe o que achava de usar de fralda para dormir melhor. Ela gostou da idéia. Tomou um banho de leito e os enfermeiros lhe colocaram a fralda. Aquietou-se. Assistimos ao jornal, novela, Big Brother e, ao ver que ela já dormia, desliguei a televisão.
Acordou de manhãzinha com a fralda cheia e reclamando que se sentia suja, que queria um banho imediatamente, a autoritária de sempre! A minha mãe de sempre!
- Mas o hospital está cheio, mãe! Passei pelo corredor e vi pessoas mil vezes pior que você! Calma!
Inútil! Ela exigia! Tive que sair do quarto e chamar os enfermeiros. Outro banho, outra roupa de cama, outra camisola. Tudo limpinho. Pronto!
Hora de tomar o café da manhã; meia caneca de café com leite e um pãozinho doce e ela disse que comeu demais. Depois se deixou ficar calada, olhando para o tempo, pensativa e eu também.
Aos poucos foi voltando a ser a minha mãe porque já não tomava mais os remédios fortes que lhe causavam confusão mental, ânsia e enjôo, motivo pelo qual ela não conseguia comer.
Aí começou a especular o futuro. Disse que tinha medo de nunca mais andar, que só saía do hospital quando estivesse boa. Eu dizia para ter paciência que ainda faltava um mínimo de três meses de fisioterapia e que ela tinha que ver o lado bom das coisas. Pelo menos não sofria mais aquela dor horrível na perna, passou pela cirurgia ilesa, que era uma mulher forte, que descansou, que dormiu bem.
Pouco antes do almoço, chegaram meu pai e minha irmã. Dei a sopa na boca de minha mãe e despedi-me.
Vim para casa com meu pai que falou o tempo todo de lá até aqui desabafando. Ouvi.
Hoje meu marido levantou-se por volta das quatro e meia da manhã e com o barulho, me acordou. Ele sai cedo para trabalhar e eu dormi de novo. Minha cunhada diz que ele é workahollic. Eu prefiro ver o lado bom: antes workahollic do alcohollic. Antes sair às cinco horas do que chegar às cinco!
Isso é o tanto que a vida tem me dado: ensinamentos, práticas e a bodhicitta da ação. Gracias a la vida.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Como eu era indiferente!


Passei por maus pedaços e acho que ainda não acabou. Minha mãe, apesar de operada e de tudo ter dado certo, continua no hospital. Além do mais, já conta oitenta e um anos. Antes, a dor que ela sentia era lancinante! Pirei! Saí pedindo reza, oração, mandinga, torcida e força prá todo mundo. Fiquei horas passando e-mails. E agora, mais algumas, agradecendo por ela ter passado bem pela cirurgia.

É engraçado como eu era indiferente. Quantas vezes recebi pedidos de oração e nem ligava. Acho que cheguei até mesmo a deletar sem pensar na dor do outro. Que vergonha!

Juro que não vou mais fazer isso! O sofrimento realmente nos faz crescer. E em mim brotou novamente mais um outro pedaço da compaixão.

domingo, 22 de março de 2009

Raiva, apego, aversão, inveja, ignorância e orgulho.

Raiva eu tenho, mas ela costuma durar pouco, cerca de meia hora. Isso quanto a alguma coisa que não deu certo. Geralmente uma costura, um crochet. Deixo de lado. Depois desmancho e faço outra vez.
O problema é quando me apego à raiva e sinto aversão por alguém que certamente sentiu inveja de mim e me prejudicou, coisa que hoje não sinto nem faço mais. Perda de tempo e energia.
Aí, a raiva fica rondando minha mente. Está ali, escondida, calada, sorrateira, sorrelfa, astuta e dissimulada. Na hora em que menos espero, a tal pessoa surge na mente ou na minha frente - o que dá na mesma - e a raiva aparece de novo e, como uma cobra, me dá o bote! Péssimo!
Tenho orgulho, e muito! Às vezes me pego fazendo apologia de mim mesma: eu sei, eu conheço, eu tenho, eu sou, eu, eu , eu! Mas peço perdão e desculpa com muita facilidade o que já é uma certa forma de orgulho.
Melhor do que culpa, seria sentir vergonha, guardar a cara no armário, meter-me sob os lençóis, trancar-me no quarto, mais perto da humildade e da humilhação.
Agora, ignorância? Pelo Sublime! Demais! Que vergonha!
Mas hoje testei minha paciência. Sentada de frente para um relógio inevitavelmente contei cinquenta minutos de nervosia, desabafo e gritaria da minha irmã que não tem a menor tolerância e lá vou eu julgar uma pessoa... que vergonha! Mas, mesmo assim, alguém sabe quanto vale a hora de um psicólogo?