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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Skandha

"A palavra sânscrita skandha tem um duplo significado: pode indicar um grupo composto de unidades menores ou uma única unidade que faz parte de um grupo maior como uma divisão de exército que contém muitos soldados, mas é parte de uma força muito maior. Tradicionalmente, em seu uso budista, a ênfase era no primeiro sentido, a ideia de que cada skandha é um grupo de dharmas. Em tibetano, phung po significa literalmente 'monte, pilha', enquanto as primeiras traduções para o inglês usavam 'agregar'. Para mim, ambas as palavras soam bastante estranhas, pouco naturais. O significado alternativo tem sido mais preferido, especialmente por eruditos ocidentais, que tem usado expressões tais como 'constituintes da personalidade' ou 'componentes psicológicos'. No todo, sinto que é melhor mantê-la em sânscrito.
A filosofia budista é sempre prática e se relaciona diretamente com a experiência, por isso, muitas vezes parece ser mais uma psicologia espiritual do que uma filosofia. O sistema dos skandhas demonstra como eles se combinam para produzir a ilusão de um ser e, ainda assim, esse ser não tem base na realidade. Embora sejamos tão completamente apegados a ele, tudo o que somos e tudo o que experimentamos pode ser explicado perfeitamente sem ele. Trungpa Rinpoche descreveu os cinco skandhas como o processo de cinco etapas do desenvolvimento do ego. É por isso que não estou completamente feliz em traduzir skandha como 'componente', o que dá a impressão de entidades separadas em vez de elementos interativos e interdependentes de um processo. Eles não são tanto do que somos feitos, mas sim como funcionamos."
De "Vazio Luminoso" - Francesca Fremantle - Editora Nova Era - página 131

sábado, 16 de maio de 2009

Diz Sua Santidade, o XIVº Dalai Lama, Tensyn Gyatso


"Um meditante que fica tempos infindos a praticar mas que não se sente interessado pelos outros e que não se mostra nem generoso nem altruísta, pratica de uma maneira ineficaz."

"Utilizar passagens dos ensinamentos sem descernimento a fim de formular juízos sobre os outros ou sobre uma situação não é positivo. Este processo testemunha um aprisionamento e uma separação do espírito e do coração. Uma técnica especial não é adaptada a todas as circunstâncias. O ensinamento não deve servir para se justificar quando é evidente que está errado."

"O espírito que medita não deve ficar no indefinido, neutro e ausente da realidade. O nada não é um dado do budismo. A vacuidade preconiza a não existência intrínseca dos fenómenos mas não a inexistência dos fenómenos. Compreender que nada tem existência em si não leva ao niilismo."

"A primeira etapa da prática consiste em tentar não produzir acções, palavras e pensamentos negativos."

"O esforço consiste em alegrar-se por ser livre de agir de uma maneira positiva e construtora."

"É possível mudar em qualquer momento. Basta querermos e agir em consequência. somos todos capazes disso."

"São as provações que revelam se um discípulo é um verdadeiro praticante. A natureza real dos seres exteriora-se nesses momentos especiais."

"Qualquer transformação interior faz-se a longo prazo. A paciência permite aceitar a lentidão desse processo."

"Fazer, todas as noites, o balanço dos nossos dias ajuda-nos a tomar consciência dos pensamentos e das acções que constribuíram para nos construir no decorrer dos diferentes momentos que acabámos de viver. Se aquilo que fizermos corresponde aos nossos compromissos, podemos alegrar-nos; caso contrário, o remorso permite evitar reproduzir actos que estão em desacordo com a nossa prática."

"As prosternações diante de Buda ou diante de um mestre não são uma homenagem feita a um deus ou a um ser de natureza divina. Estas prosternações testemunham que reconhecemos a nossa natureza fundamental que é conhecimento puro, total, absoluto e luminoso da realidade libertada da ignorância."

"Os Budas fizeram o voto de libertar os seres deste ciclo ilusório, reino de sofrimento. Manifestam as suas ações através dos mestres. Os mestres dão o seu suporte, o seu canal. Abrem para nós a porta que dá acesso às diferentes actividades dos Budas. É por isso que devemos considerar simbolicamente o mestre como um Buda autêntico a fim de que estes últimos possam agir através deles."

"As iniciações estão na moda. Mas se não praticar, não receberá a quintessência destas iniciações. Passará sem dúvida um momento agradável, mas não terá incidência sobre a sua evolução."

"O essencial para sermos felizes é sentirmo-nos satisfeitos com o que somos e com o que possuímos no momento presente. Este contentamento interior mudará o olhar que pousamos sobre as coisas e o nosso espírito sentir-se-á em paz."

"Quando uma pessoa nos ofende, não hesitemos em lhe perdoar. Na verdade, se reflectirmos sobre o que motivou o seu acto, compreenderemos que foi o sofrimento que carrega e não a vontade deliberada de nos magoar ou prejudicar. Perdoar é um gesto activo baseado na reflexão e não no esquecimento. Perdoar é um acto responsável que se apoia no conhecimento e na aceitação da realidade das circunstâncias enfrentadas."

"A raiva, o ódio, a aversão necessitam de um objecto para se manifestarem, como o lume precisa de lenha para arder. Quando enfrentamos condições adversas, seres que nos provocam ou nos tentam prejudicar, utilizemos a força da paciência para não sermos arrastados por emoções "negativas". A paciência é uma força que resulta da nossa capacidade de nos mantermos firmes e inabaláveis, sejam quais forem as circunstâncias. Se recorrermos à paciência, nada nem ninguém poderá perturbar a paz do nosso espírito."

"Não percamos tempo em invejas ou em querelas diversas. Meditemos sobre a impermanência a fim de estimar o valor da vida. Alcançar a paz do espírito e do coração exige uma mudança de hábitos mentais. Sob pena de enlouquecermos quando abandonamos este mundo, aprendamos a não nos prendermos às coisas como se pudéssemos levá-las no momento da morte."

"Criamos constantemente a nossa própria infelicidade derivado à nossa ignorância e falta de discernimento. O nosso espírito oscila entre o que apreciamos e o que rejeitamos. Agimos como se pudéssemos repelir as circunstâmcias que se nos apresentam. Esquecemo-nos de que nada dura nem tem existência em si. Esquecemo-nos de que podemos morrer a qualquer instante."

"Os actos que realizamos são um reflexo dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos. Não são em si mesmos positivos nem negativos, antes dependem da intenção subjacente. É esta intenção que determina o nosso karma, a lei de causa e efeito que faz a vida parecer-nos feliz ou infeliz."

"Aprender a dar começa pela renúncia a ofender os outros. Deste modo, renunciamos igualmente a prejudicarmo-nos, pois magoar os outros é em primeiro lugar ferir-nos a nós próprios."
"Cultivar a paciência ensina a desenvolver a compaixão em relação aos que nos ofendem sem no entanto aceitarmos que nos destruam. A compaixão é a melhor terapia para o espírito. Liberta-o de todas as amarras e do domínio das emoções conflituais."
"Esforcemo-nos por contribuir, em cada momento da nossa existência, para a libertação dos seres do sofrimento e das suas causas e ajudemo-los a encontrar a felicidade e as suas causas. Lembremo-nos de que sentir compaixão pelos seres começa por sentirmos compaixão por nós próprios, o que não tem nada de egoísta, pois estamos incluídos em todos os outros seres."
"Tudo é impermanente, é por isso que temos a possibilidade de transformar o nosso espírito e as emoções perturbadoras que o animam. O ódio ou a raiva, por exemplo, surgem em função das circunstâncias. Não são, portanto, reais em si mesmas, não existem de forma permanente no espírito e é por isso que se torna possível domá-las, transformá-las e eliminá-las. Para isso, importa restituí-las ao seu contexto, analisar as circunstâncias que as levaram a manifestar-se, compreender o seu sentido. Construir um estado de felicidade duradouro exige que purifiquemos o espírito de todas as emoções negativas."
"O princípio dito da interdependência dos seres e dos fenómenos ensina-nos que estamos sempre ligados uns aos outros, à natureza e ao cosmos. Somos interdependentes, o que explica que sejamos responsáveis pelo que pensamos, vivemos, pelo mais insignificante dos nossos actos, pois eles influenciam o resto do universo. Além disso, devido a esta interacção constante entre tudo o que existe, temos o dever de ajudar todos os seres sensíveis a libertarem-se do sofrimento e a encontrar as causas da felicidade. Ajudar todos os seres significa que também devemos agir sobre as causas dos sofrimentos que nos atingem directamente. É a interdependência bem entendida."
"Compete a cada um de nós, com ou sem ajuda de um mestre, determinar a forma de prática mais conveniente, a mais adaptada às nossas necessidades específicas. Este critério é essencial para conseguirmos a transformação interior, a paz do espírito e o desenvolvimento das qualidades positivas que farão de nós bons seres humanos. Por conseguinte, é capital que os mestres religiosos ensinem de acordo com a inclinação espiritual e a disposição mental de cada um, como fez Buda Sakyamuni no seu tempo. Assim como não consumimos os mesmos alimentos que o nosso vizinho - cada um come em função da sua constituição física -, também não necessitamos dos mesmos alimentos espirituais."